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Ensino Superior e Mobilidade Social: Do Tempo das Promessas ao Tempo das Incertezas | Por Hugo Lima

O atalaiense Hugo Lima é Licenciado e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Phablo Monteiro
Por: Phablo Monteiro
05/05/2026 às 17h15
Ensino Superior e Mobilidade Social: Do Tempo das Promessas ao Tempo das Incertezas | Por Hugo Lima
Artigo de Opinião: Ensino Superior e Mobilidade Social: Do Tempo das Promessas ao Tempo das Incertezas.

Ao longo das últimas décadas, o ensino superior foi promovido como o principal motor de mobilidade social, sendo percecionado como uma via quase garantida para melhores rendimentos, estabilidade e prestígio, ideia que permanece profundamente enraizada no imaginário contemporâneo.  Contudo, essa promessa, quando observada fora dos grandes centros urbanos, revela-se cada vez mais condicionada por fatores estruturais que a educação, por si só, não consegue superar. A realidade de Atalaia, no Nordeste brasileiro, oferece um exemplo claro dessa tensão.

Com cerca de 37 mil habitantes e um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0,561, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Atalaia insere-se num contexto que se pode caracterizar como de fragilidade socioeconómica. O mercado de trabalho local é limitado: pouco mais de 5.800 pessoas têm emprego (formal ou informal; cf. SIDRA/IBGE), num universo populacional muito mais amplo. Este descompasso levanta uma questão fundamental: até que ponto a expansão do ensino superior pode, de facto, traduzir-se em mobilidade social quando a economia local não gera oportunidades compatíveis com níveis mais elevados de qualificação?

A obra de Pierre Bourdieu continua a oferecer uma visão indispensável para interpretar este fenómeno. Para Bourdieu, o sistema educativo não atua apenas como um instrumento de ascensão, mas também como um mecanismo de reprodução das desigualdades, através da distribuição desigual de capital sociocultural. Em contextos como o de Alagoas, onde uma parcela significativa da população adulta não completou a educação básica – 48,4% dos alagoanos com 25 anos ou mais não têm instrução ou não concluíram o ensino fundamental (Censo Demográfico, 2022) –, o acesso ao ensino superior ocorre em condições profundamente desiguais. 

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Mesmo entre aqueles que conseguem chegar à universidade, os retornos desse investimento variam de forma acentuada. Ainda que seja garantida a igualdade de acesso ou até de oportunidades, como garantir a igualdade de “sobrevivência”, de resultados e de uso? Se preferirem: como passar da igualdade para a equidade no sistema de ensino, tendo em vista uma mobilidade social justa para quem tanto trabalha e sonha com uma vida melhor?

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A teoria do capital humano, associada a Gary Becker, sustenta que mais educação conduz a maior produtividade e, consequentemente, a melhores rendimentos. Em termos gerais, essa relação permanece válida: licenciados, mestres e doutorados tendem a apresentar uma empregabilidade mais robusta, o que leva a uma taxa de emprego mais elevada e a salários superiores à média. No entanto, essa lógica assume um mercado capaz de absorver mão de obra qualificada e esta é uma condição que está longe de ser garantida em economias locais mais frágeis do que os grandes centros urbanos.

Em Atalaia, a base empresarial é reduzida e pouco diversificada (sobretudo agroindústria, serviços e comércio local). As oportunidades de emprego qualificado são escassas, e o chamado “prémio salarial” do ensino superior torna-se, na prática, limitado e inconsistente. Ter um elevado número de pessoas com qualificação de nível superior nesse contexto poderia ter como resultado um fenómeno cada vez mais visível em regiões periféricas: a inflação de credenciais. Ou seja, uma situação em que os diplomas multiplicam-se mais rapidamente do que as oportunidades, catapultando os jovens licenciados, mestres ou doutorados para o subemprego, a informalidade ou a migração para centros urbanos maiores.

Economistas contemporâneos como Thomas Piketty têm argumentado que a educação, embora essencial, não é suficiente para reduzir desigualdades num contexto de concentração de rendimento e crescimento económico desigual. A experiência de Atalaia confirma essa leitura. Sem investimento produtivo, diversificação económica e políticas públicas orientadas para o desenvolvimento regional, o ensino superior corre o risco de se tornar um mecanismo de frustração de expectativas – um símbolo de aspiração que não se traduz em mobilidade real.

Nada disto implica desvalorizar a educação. Pelo contrário: para muitos, ela continua a ser a única possibilidade concreta de alterar trajetórias de vida. Mas a sua eficácia depende, cada vez mais, de fatores que ultrapassam o indivíduo – círculo de influência (redes de relações sociais), localização geográfica e, sobretudo, a capacidade do território em gerar oportunidades.

O desafio para o executivo da Prefeitura de Atalaia – que tem vindo a investir no sistema educativo de Atalaia nos últimos anos, verdade seja dita – não pode ser negligenciado: como criar condições para que o talento com altas qualificações seja retido na cidade e povoações pertencentes a esta, gerando riqueza socioeconómica e intelectual acrescida? Passará, seguramente, por criar, junto dos parceiros industriais, comerciais/empresariais e demais agentes geradores de emprego: oportunidades de trabalho com condições condizentes e compatíveis com o nível de qualificação superior; condições propícias para a fixação, do ponto de vista habitacional; continuidade do investimento (quem já tem vindo a verificar-se, gradualmente) em infraestruturas e captação de novos empregadores (do setor industrial, do retalho, comercial, etc.).

A lição que emerge de Atalaia é tanto específica, quanto holística. Expandir o acesso ao ensino superior é uma condição necessária, mas não suficiente, para promover mobilidade social. Sem uma estratégia integrada que articule educação, desenvolvimento económico e coesão territorial, o diploma deixa de ser um passaporte para a ascensão e passa a ser apenas um “marcador de desigualdade potencial”.

Num momento em que o mundo enfrenta níveis persistentes de desigualdade, de volatilidade, incerteza e ambiguidade, talvez seja tempo de abandonar a ideia reconfortante de que a educação resolve, por si só, as falhas estruturais da economia. Se quisermos, podemos servir- nos da ideia básica de Rui Canário de que passámos de uma certeza de que a escola (leia-se também “Ensino Superior”, visto que as Instituições de Ensino Superior são “grandes escolas”) bastava para garantir um futuro, para uma incerteza funcional, onde o diploma continua a ser importante, mas já não funciona como garantia de sucesso. Em cidades como Atalaia, a questão já não é apenas quem consegue chegar à universidade, mas que tipo de sociedade os espera quando dela saem.

Fontes consultadas:

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil
Ministério do Trabalho e Emprego
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

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Hugo Lima
Hugo Lima
Hugo Sarmento de Lima, natural de Atalaia, estado de Alagoas, vive em Portugal desde janeiro de 2012. É Licenciado e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, tendo sido distinguido com o Prémio de Melhor Estudante Finalista em Ciências da Educação no ano de 2020, bem como tendo integrado o Quadro de Mérito (5% melhores estudantes) desta universidade.

Ao longo do seu percurso profissional adquiriu experiência em diferentes áreas, incluindo atividade comercial no ramo imobiliário, gestão administrativa na SPFIE — Associação Portuguesa de Fratura e Integridade Estrutural, gestão de projetos de formação financiados na Akto – Direitos Humanos e Democracia, onde exerce atualmente funções como Vogal do Conselho Fiscal.

Desde 1 de março de 2023 desempenha funções na Universidade de Coimbra como Gestor de Programas de Captação de Estudantes na Universidade de Coimbra, Gestor de Eventos e, mais recentemente, Gestor de Programas de Empreendedorismo.

Paralelamente, mantém um percurso ativo no associativismo e na cultura, tendo sido músico executante em bandas filarmónicas durante mais de seis anos e atleta federado. Integrou os órgãos sociais do Coro Sinfónico Inês de Castro, onde exerceu o cargo de Tesoureiro da Direção, e é atualmente Vogal da Direção e Representante de Naipe do Conselho Artístico da Associação Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, destacando-se pelo seu envolvimento na promoção cultural e académica e por um perfil marcado pela ambição e persistência.
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