
Ao longo das últimas décadas, o ensino superior foi promovido como o principal motor de mobilidade social, sendo percecionado como uma via quase garantida para melhores rendimentos, estabilidade e prestígio, ideia que permanece profundamente enraizada no imaginário contemporâneo. Contudo, essa promessa, quando observada fora dos grandes centros urbanos, revela-se cada vez mais condicionada por fatores estruturais que a educação, por si só, não consegue superar. A realidade de Atalaia, no Nordeste brasileiro, oferece um exemplo claro dessa tensão.
Com cerca de 37 mil habitantes e um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0,561, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Atalaia insere-se num contexto que se pode caracterizar como de fragilidade socioeconómica. O mercado de trabalho local é limitado: pouco mais de 5.800 pessoas têm emprego (formal ou informal; cf. SIDRA/IBGE), num universo populacional muito mais amplo. Este descompasso levanta uma questão fundamental: até que ponto a expansão do ensino superior pode, de facto, traduzir-se em mobilidade social quando a economia local não gera oportunidades compatíveis com níveis mais elevados de qualificação?
A obra de Pierre Bourdieu continua a oferecer uma visão indispensável para interpretar este fenómeno. Para Bourdieu, o sistema educativo não atua apenas como um instrumento de ascensão, mas também como um mecanismo de reprodução das desigualdades, através da distribuição desigual de capital sociocultural. Em contextos como o de Alagoas, onde uma parcela significativa da população adulta não completou a educação básica – 48,4% dos alagoanos com 25 anos ou mais não têm instrução ou não concluíram o ensino fundamental (Censo Demográfico, 2022) –, o acesso ao ensino superior ocorre em condições profundamente desiguais.
Mesmo entre aqueles que conseguem chegar à universidade, os retornos desse investimento variam de forma acentuada. Ainda que seja garantida a igualdade de acesso ou até de oportunidades, como garantir a igualdade de “sobrevivência”, de resultados e de uso? Se preferirem: como passar da igualdade para a equidade no sistema de ensino, tendo em vista uma mobilidade social justa para quem tanto trabalha e sonha com uma vida melhor?
A teoria do capital humano, associada a Gary Becker, sustenta que mais educação conduz a maior produtividade e, consequentemente, a melhores rendimentos. Em termos gerais, essa relação permanece válida: licenciados, mestres e doutorados tendem a apresentar uma empregabilidade mais robusta, o que leva a uma taxa de emprego mais elevada e a salários superiores à média. No entanto, essa lógica assume um mercado capaz de absorver mão de obra qualificada e esta é uma condição que está longe de ser garantida em economias locais mais frágeis do que os grandes centros urbanos.
Em Atalaia, a base empresarial é reduzida e pouco diversificada (sobretudo agroindústria, serviços e comércio local). As oportunidades de emprego qualificado são escassas, e o chamado “prémio salarial” do ensino superior torna-se, na prática, limitado e inconsistente. Ter um elevado número de pessoas com qualificação de nível superior nesse contexto poderia ter como resultado um fenómeno cada vez mais visível em regiões periféricas: a inflação de credenciais. Ou seja, uma situação em que os diplomas multiplicam-se mais rapidamente do que as oportunidades, catapultando os jovens licenciados, mestres ou doutorados para o subemprego, a informalidade ou a migração para centros urbanos maiores.
Economistas contemporâneos como Thomas Piketty têm argumentado que a educação, embora essencial, não é suficiente para reduzir desigualdades num contexto de concentração de rendimento e crescimento económico desigual. A experiência de Atalaia confirma essa leitura. Sem investimento produtivo, diversificação económica e políticas públicas orientadas para o desenvolvimento regional, o ensino superior corre o risco de se tornar um mecanismo de frustração de expectativas – um símbolo de aspiração que não se traduz em mobilidade real.
Nada disto implica desvalorizar a educação. Pelo contrário: para muitos, ela continua a ser a única possibilidade concreta de alterar trajetórias de vida. Mas a sua eficácia depende, cada vez mais, de fatores que ultrapassam o indivíduo – círculo de influência (redes de relações sociais), localização geográfica e, sobretudo, a capacidade do território em gerar oportunidades.
O desafio para o executivo da Prefeitura de Atalaia – que tem vindo a investir no sistema educativo de Atalaia nos últimos anos, verdade seja dita – não pode ser negligenciado: como criar condições para que o talento com altas qualificações seja retido na cidade e povoações pertencentes a esta, gerando riqueza socioeconómica e intelectual acrescida? Passará, seguramente, por criar, junto dos parceiros industriais, comerciais/empresariais e demais agentes geradores de emprego: oportunidades de trabalho com condições condizentes e compatíveis com o nível de qualificação superior; condições propícias para a fixação, do ponto de vista habitacional; continuidade do investimento (quem já tem vindo a verificar-se, gradualmente) em infraestruturas e captação de novos empregadores (do setor industrial, do retalho, comercial, etc.).
A lição que emerge de Atalaia é tanto específica, quanto holística. Expandir o acesso ao ensino superior é uma condição necessária, mas não suficiente, para promover mobilidade social. Sem uma estratégia integrada que articule educação, desenvolvimento económico e coesão territorial, o diploma deixa de ser um passaporte para a ascensão e passa a ser apenas um “marcador de desigualdade potencial”.
Num momento em que o mundo enfrenta níveis persistentes de desigualdade, de volatilidade, incerteza e ambiguidade, talvez seja tempo de abandonar a ideia reconfortante de que a educação resolve, por si só, as falhas estruturais da economia. Se quisermos, podemos servir- nos da ideia básica de Rui Canário de que passámos de uma certeza de que a escola (leia-se também “Ensino Superior”, visto que as Instituições de Ensino Superior são “grandes escolas”) bastava para garantir um futuro, para uma incerteza funcional, onde o diploma continua a ser importante, mas já não funciona como garantia de sucesso. Em cidades como Atalaia, a questão já não é apenas quem consegue chegar à universidade, mas que tipo de sociedade os espera quando dela saem.
Fontes consultadas:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil
Ministério do Trabalho e Emprego
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
