
Do que me é possível observar, quer em Portugal, quer no Brasil, a Educação Profissional atravessa um momento de inflexão. Não se trata apenas de ser capaz de expandir o número de matrículas ou de realizar atualização curricular. O que está em causa é o papel estratégico dessa modalidade na estrutura produtiva do país ou região onde esta ocorre.
Historicamente, o ensino técnico-profissional foi tratado como uma alternativa secundária. Azevedo e Capucha (2021, p. 7) falam-nos da “reputação” do ensino profissional na atualidade, dizendo-nos que esta modalidade de ensino está a passar por uma grande desvalorização, “em boa parte resultante de se lhe ter associado a imagem de um tipo de ensino destinado a alunos com um menor desempenho escolar no ensino geral, predominantemente oriundos de meios mais desfavorecidos […]. Esta visão reforça as tendências para considerar a opção pelos cursos profissionais como resultado de segundas escolhas, de uma orientação marcada pelo insucesso escolar e de uma cristalização da seletividade social” (cf. Lima, 2022, p. 30). No entanto, vejo a educação e ensino profissional como um eixo central da competitividade industrial.
O Brasil começa, ainda que de forma tardia, a revisitar essa lógica. Nos próximos dez anos, qual será o cenário da formação técnico-profissional no Brasil? E em Alagoas e Atalaia? Que desafios lança e que oportunidade poderá propiciar? Creio que podemos tecer três movimentos ou cenários principais para onde a educação profissional poderá (deverá!) caminhar.
O primeiro cenário é a pressão do mercado por competências de transferência prática e aplicáveis. A inevitável aceleração tecnológica, impulsionada pela automação, digitalização de processos e inteligência artificial, reduz gradualmente o campo para formações demasiadamente teóricas. As empresas procuram profissionais operacionais com capacidade de flexibilidade e adaptação, leitura e interpretação de dados e resolução de problemas em ambientes reais. Isso beneficia diretamente um modelo de educação profissional que seja capaz de se atualizar ao ritmo exigido.
O segundo movimento que identifico é a reformulação do próprio conceito de carreira. A ideia de percurso profissional linear tem vindo a perder força nas novas gerações. O cidadão e profissional do futuro será, cada vez mais, um indivíduo em constante reeducação e requalificação. Dada a velocidade com que as mudanças no mundo laboral decorrem, a velocidade de atualização e produção de conhecimento e a própria valorização de fatores como o bem-estar e mobilidade na carreira, deixa de ser o foco carreiras mais “tradicionais” em que o principal atrativo era a estabilidade oferecida pelo vínculo laboral efetivo de longa duração. Nesse contexto, a Educação Profissional deixa de ser uma etapa inicial, eventualmente integrada num ensino médio (“ensino secundário”, em Portugal) de cariz técnico, passando a ser um elemento recorrente ao longo da vida. Cursos especializados, modulares e flexíveis (quer ao nível do modelo e estrutura quer quanto à tipologia de formação, com grande incidência no online e Ensino a Distância) tendem a adquirir protagonismo.
O terceiro cenário diz respeito à necessidade de articulação entre educação e setor produtivo. A desconexão entre o ensino formal e o mundo industrial e empresarial é preocupante e deve ser revista com sentido de responsabilidade, no sentido da saudável integração no campo educacional. Isto, por um lado, para evitar a alienação dos jovens ativos em relação às reais necessidades do mercado de trabalho, e por outro, para fomentar e potenciar a componente prática da formação. Iniciativas que aproximam esses dois mundos, como parcerias institucionais, aprendizagem prática e modelos de formação inspirados em sistemas de ensino duais, tendem a se expandir e, sem essa conexão, os avanços que possam vir a ser alcançados poderão ser limitados. Não se trata de balcanizar o setor da educação ou de imiscuir o ensino (seja público ou privado) com o setor privado (industrial e empresarial), mas sim de criar sinergias potenciadoras de uma transição mais bem-sucedida dos nossos jovens e do reforço de competências da população adulta e ativa.
Não obstante, caso esse incremento da oferta formativa profissional não seja levado a cabo de forma consistente, poderá apresentar riscos de processo a evitar, os quais passo a explanar de forma breve:
Em primeiro lugar, a expansão sem qualidade pode gerar um efetivo perverso: diplomados técnicos sem valor real no mercado. Qual fator diferencial devem ter os novos perfis, novos diplomados e formados, os novos ativos? Isto num mundo que é VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), na Era da IA e de um cenário mundial altamente conturbado e acelerado. Além disso, a desigualdade regional pode aprofundar ainda mais o abismo entre centros mais desenvolvidos e regiões com menor acesso a infraestrutura educacional.
Em segundo lugar, a formação de professores é um ponto crítico. Não há transformação consistente sem docentes devidamente habilitados para lidar com as metodologias ativas de ensino e aprendizagem, com as novas tecnologias e com as demandas do mundo laboral. Descurar esse fator poderá comprometer qualquer perspectiva otimista.
Se bem estruturada e com base numa profunda análise de necessidades, aliada a um currículo teórico-prático fundamentado no rigor da investigação científica, a Educação Profissional pode cumprir um papel crucial: formar profissionais prontos para produzir, empreender, inovar e responder às demandas reais da economia e da sociedade. As oportunidades são significativas, mas há que saber aproveitá-las e potenciá-las, através da qualificação e da constante reciclagem de competências a que o mundo atual obriga.
Cabe aos decisores políticos e governantes (também ao nível autárquico/prefeitura) olhar com sentido crítico para esta temática, abraçando o desafio de tomar decisões no sentido do desenvolvimento de políticas públicas e intervenções para colmatar as necessidades supracitadas. É possível converter os desafios em oportunidade, através de uma oferta diversificada e que dê resposta às necessidades técnico-profissionais do mercado de trabalho. Atalaia é uma cidade relativamente “pequena”, se tivermos em conta a dimensão e densidade populacional de algumas regiões do Brasil. Conta com mais de 38 mil habitantes (cf. IBGE). No entanto, o Município não deve “acanhar-se” nem servir-se do fator “cidade de interior do Nordeste” como bengala para a inação: deve sim primar pela ousadia, devidamente fundamentada e sustentada em conhecimento, para ser um farol neste âmbito. A Prefeitura de Atalaia, que tem-se mostrado proativa e dinâmica a vários níveis, terá ou criará as condições necessárias para abraçar este desafio nos próximos anos? Quero crer que sim.
A próxima década não será sobre escolher entre ensino técnico ou superior. Será sobre integrar, articular e dar função clara a cada nível de formação.
Fontes consultadas:
Guia de escolas, creches e centros educativos no Brasil. https://escolasecreches.com.br/
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IGMA – Índice de Gestão Municipal Aquila
Lima, H. S. de. (2022). A importância da promoção de competências socioemocionais em jovens do ensino profissional [Relatório de estágio, Universidade de Coimbra]. Repositório Estudo Geral. https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/104236
Valente, A. C. (s.d.). Novos mercados de trabalho e novas profissões. Consórcio Maior Empregabilidade. https://maiorempregabilidade.forum.pt/index.php/publicacoes/101-novos- mercados-de-trabalho-e-novas-profissoes

