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Educação Profissional: Uma Análise Prospectiva | Por Hugo Lima

O atalaiense Hugo Lima é Licenciado e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Phablo Monteiro
Por: Phablo Monteiro Fonte: Imagem: Internet
27/03/2026 às 18h43 Atualizada em 27/03/2026 às 19h44
Educação Profissional: Uma Análise Prospectiva | Por Hugo Lima
Imagem: Internet

Do que me é possível observar, quer em Portugal, quer no Brasil, a Educação Profissional atravessa um momento de inflexão. Não se trata apenas de ser capaz de expandir o número de matrículas ou de realizar atualização curricular. O que está em causa é o papel estratégico dessa modalidade na estrutura produtiva do país ou região onde esta ocorre.

Historicamente, o ensino técnico-profissional foi tratado como uma alternativa secundária. Azevedo e Capucha (2021, p. 7) falam-nos da “reputação” do ensino profissional na atualidade, dizendo-nos que esta modalidade de ensino está a passar por uma grande desvalorização, “em boa parte resultante de se lhe ter associado a imagem de um tipo de ensino destinado a alunos com um menor desempenho escolar no ensino geral, predominantemente oriundos de meios mais desfavorecidos […]. Esta visão reforça as tendências para considerar a opção pelos cursos profissionais como resultado de segundas escolhas, de uma orientação marcada pelo insucesso escolar e de uma cristalização da seletividade social” (cf. Lima, 2022, p. 30). No entanto, vejo a educação e ensino profissional como um eixo central da competitividade industrial.

O Brasil começa, ainda que de forma tardia, a revisitar essa lógica. Nos próximos dez anos, qual será o cenário da formação técnico-profissional no Brasil? E em Alagoas e Atalaia? Que desafios lança e que oportunidade poderá propiciar? Creio que podemos tecer três movimentos ou cenários principais para onde a educação profissional poderá (deverá!) caminhar.

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O primeiro cenário é a pressão do mercado por competências de transferência prática e aplicáveis. A inevitável aceleração tecnológica, impulsionada pela automação, digitalização de processos e inteligência artificial, reduz gradualmente o campo para formações demasiadamente teóricas. As empresas procuram profissionais operacionais com capacidade de flexibilidade e adaptação, leitura e interpretação de dados e resolução de problemas em ambientes reais. Isso beneficia diretamente um modelo de educação profissional que seja capaz de se atualizar ao ritmo exigido.

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O segundo movimento que identifico é a reformulação do próprio conceito de carreira. A ideia de percurso profissional linear tem vindo a perder força nas novas gerações. O cidadão e profissional do futuro será, cada vez mais, um indivíduo em constante reeducação e requalificação. Dada a velocidade com que as mudanças no mundo laboral decorrem, a velocidade de atualização e produção de conhecimento e a própria valorização de fatores como o bem-estar e mobilidade na carreira, deixa de ser o foco carreiras mais “tradicionais” em que o principal atrativo era a estabilidade oferecida pelo vínculo laboral efetivo de longa duração. Nesse contexto, a Educação Profissional deixa de ser uma etapa inicial, eventualmente integrada num ensino médio (“ensino secundário”, em Portugal) de cariz técnico, passando a ser um elemento recorrente ao longo da vida. Cursos especializados, modulares e flexíveis (quer ao nível do modelo e estrutura quer quanto à tipologia de formação, com grande incidência no online e Ensino a Distância) tendem a adquirir protagonismo.

O terceiro cenário diz respeito à necessidade de articulação entre educação e setor produtivo. A desconexão entre o ensino formal e o mundo industrial e empresarial é preocupante e deve ser revista com sentido de responsabilidade, no sentido da saudável integração no campo educacional. Isto, por um lado, para evitar a alienação dos jovens ativos em relação às reais necessidades do mercado de trabalho, e por outro, para fomentar e potenciar a componente prática da formação. Iniciativas que aproximam esses dois mundos, como parcerias institucionais, aprendizagem prática e modelos de formação inspirados em sistemas de ensino duais, tendem a se expandir e, sem essa conexão, os avanços que possam vir a ser alcançados poderão ser limitados. Não se trata de balcanizar o setor da educação ou de imiscuir o ensino (seja público ou privado) com o setor privado (industrial e empresarial), mas sim de criar sinergias potenciadoras de uma transição mais bem-sucedida dos nossos jovens e do reforço de competências da população adulta e ativa.

Não obstante, caso esse incremento da oferta formativa profissional não seja levado a cabo de forma consistente, poderá apresentar riscos de processo a evitar, os quais passo a explanar de forma breve:

Em primeiro lugar, a expansão sem qualidade pode gerar um efetivo perverso: diplomados técnicos sem valor real no mercado. Qual fator diferencial devem ter os novos perfis, novos diplomados e formados, os novos ativos? Isto num mundo que é VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), na Era da IA e de um cenário mundial altamente conturbado e acelerado. Além disso, a desigualdade regional pode aprofundar ainda mais o abismo entre centros mais desenvolvidos e regiões com menor acesso a infraestrutura educacional.

Em segundo lugar, a formação de professores é um ponto crítico. Não há transformação consistente sem docentes devidamente habilitados para lidar com as metodologias ativas de ensino e aprendizagem, com as novas tecnologias e com as demandas do mundo laboral. Descurar esse fator poderá comprometer qualquer perspectiva otimista.

Se bem estruturada e com base numa profunda análise de necessidades, aliada a um currículo teórico-prático fundamentado no rigor da investigação científica, a Educação Profissional pode cumprir um papel crucial: formar profissionais prontos para produzir, empreender, inovar e responder às demandas reais da economia e da sociedade. As oportunidades são significativas, mas há que saber aproveitá-las e potenciá-las, através da qualificação e da constante reciclagem de competências a que o mundo atual obriga.

Cabe aos decisores políticos e governantes (também ao nível autárquico/prefeitura) olhar com sentido crítico para esta temática, abraçando o desafio de tomar decisões no sentido do desenvolvimento de políticas públicas e intervenções para colmatar as necessidades supracitadas. É possível converter os desafios em oportunidade, através de uma oferta diversificada e que dê resposta às necessidades técnico-profissionais do mercado de trabalho. Atalaia é uma cidade relativamente “pequena”, se tivermos em conta a dimensão e densidade populacional de algumas regiões do Brasil. Conta com mais de 38 mil habitantes (cf. IBGE). No entanto, o Município não deve “acanhar-se” nem servir-se do fator “cidade de interior do Nordeste” como bengala para a inação: deve sim primar pela ousadia, devidamente fundamentada e sustentada em conhecimento, para ser um farol neste âmbito. A Prefeitura de Atalaia, que tem-se mostrado proativa e dinâmica a vários níveis, terá ou criará as condições necessárias para abraçar este desafio nos próximos anos? Quero crer que sim.
 
A próxima década não será sobre escolher entre ensino técnico ou superior. Será sobre integrar, articular e dar função clara a cada nível de formação.

Fontes consultadas:

Guia de escolas, creches e centros educativos no Brasil. https://escolasecreches.com.br/
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IGMA – Índice de Gestão Municipal Aquila
Lima, H. S. de. (2022). A importância da promoção de competências socioemocionais em jovens do ensino profissional [Relatório de estágio, Universidade de Coimbra]. Repositório Estudo Geral. https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/104236
Valente, A. C. (s.d.). Novos mercados de trabalho e novas profissões. Consórcio Maior Empregabilidade. https://maiorempregabilidade.forum.pt/index.php/publicacoes/101-novos- mercados-de-trabalho-e-novas-profissoes

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Hugo Lima
Hugo Lima
Hugo Sarmento de Lima, natural de Atalaia, estado de Alagoas, vive em Portugal desde janeiro de 2012. É Licenciado e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, tendo sido distinguido com o Prémio de Melhor Estudante Finalista em Ciências da Educação no ano de 2020, bem como tendo integrado o Quadro de Mérito (5% melhores estudantes) desta universidade.

Ao longo do seu percurso profissional adquiriu experiência em diferentes áreas, incluindo atividade comercial no ramo imobiliário, gestão administrativa na SPFIE — Associação Portuguesa de Fratura e Integridade Estrutural, gestão de projetos de formação financiados na Akto – Direitos Humanos e Democracia, onde exerce atualmente funções como Vogal do Conselho Fiscal.

Desde 1 de março de 2023 desempenha funções na Universidade de Coimbra como Gestor de Programas de Captação de Estudantes na Universidade de Coimbra, Gestor de Eventos e, mais recentemente, Gestor de Programas de Empreendedorismo.

Paralelamente, mantém um percurso ativo no associativismo e na cultura, tendo sido músico executante em bandas filarmónicas durante mais de seis anos e atleta federado. Integrou os órgãos sociais do Coro Sinfónico Inês de Castro, onde exerceu o cargo de Tesoureiro da Direção, e é atualmente Vogal da Direção e Representante de Naipe do Conselho Artístico da Associação Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, destacando-se pelo seu envolvimento na promoção cultural e académica e por um perfil marcado pela ambição e persistência.
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