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O Poder Transformador da Educação | Por Hugo Lima

O atalaiense Hugo Lima é Licenciado e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Phablo Monteiro
Por: Phablo Monteiro
25/02/2026 às 17h49 Atualizada em 25/02/2026 às 18h36
O Poder Transformador da Educação | Por Hugo Lima
Hugo Sarmento de Lima, natural de Atalaia, estado de Alagoas, vive em Portugal desde janeiro de 2012.

Falar de educação é, inevitavelmente, falar de futuro. Mas quando essa reflexão parte de Atalaia, no coração do Estado de Alagoas, ela ganha um significado ainda mais fundamental para mim: trata-se de pensar no futuro das nossas crianças, das nossas famílias e da própria identidade da região.

Em jeito de testemunho autobiográfico, para o caso de ser um exemplo útil a algum/a jovem que leia estes parágrafos, deixo um brevíssimo resumo de como o poder transformador da educação mudou a minha vida (para melhor!), como filho de Atalaia: tendo realizado a Educação Infantil e o Ensino Fundamental em Atalaia, emigrei e realizei o Ensino Médio e o Ensino Superior (Licenciatura e Mestrado) em Portugal. No Ensino Superior obtive a distinção (prémio) de Melhor Aluno Finalista do meu curso, bem como integrei o Quadro de Mérito da Universidade de Coimbra. Não obstante, seria contraditório considerar apenas a componente acadêmica como referência de sucesso. Outros fatores foram igualmente determinantes, cumulativamente, para aquilo que considero um percurso de sucesso até aqui: desde a educação informal no seio familiar, passando pela participação socialmente ativa em contextos comunitários (Bandas Filarmónicas, Orquestra, Atletismo, Coros, Voluntariado, etc.), até a educação não formal (para obtenção de competências práticas, desde temáticas como a igualdade de género, até a área comercial, liderança e digital). No fundo, considero que a componente transformadora da minha educação em particular advém da abrangência, diversidade e riqueza das aprendizagens e interações sociais, nos diferentes contextos e âmbitos, a que tive acesso e em que tive oportunidade de dar um contributo proativo.

Atalaia tem feito, sobretudo nos últimos anos, um consistente percurso de melhoria, qualitativa e quantitativa, no incremento do campo educacional: recentemente, conquistou o “Selo Ouro da Alfabetização” pelo segundo ano consecutivo, concedido pelo Ministério da Educação; a adoção da política pública estratégica “Busca Ativa Escolar”, com destaque a nível nacional e reforçada localmente a nível municipal por protocolo pela Prefeita Ceci. Considero que Atalaia pode e deve seguir esse caminho, reforçando as áreas mais deficitárias e apoiando as famílias dos estudantes, visto que o contexto onde as nossas crianças e jovens crescem e estão a maior parte dos seus dias, reveste-se de crucial importância para o seu desenvolvimento saudável e para o sucesso (acadêmico e não só!). Só com uma estratégia consistente de capacitação e melhoria contínua — dos estudantes, das famílias e das estruturas educativas — poderemos alcançar uma educação de excelência, um município desenvolvido e sermos um farol para o Estado de Alagoas! Temos muitos talentos em Atalaia, mas devemos criar as condições e oportunidades para que floresçam e deem frutos.

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Não é difícil encontrarmos casos em que estudantes atalaienses têm sido bem-sucedidos em diversos eventos, olimpíadas educacionais (relacionadas com alguma área do saber ou mais genéricas e transversais), o que dá destaque à qualidade do ensino no município e a sua subida em índices e rankings relacionados com o nível e qualidade da educação. No entanto, o desafio não é simplesmente melhorar posições em rankings nacionais. É construir um projeto educativo que reconheça as especificidades locais — culturais, sociais e económicas — e, simultaneamente, dialogue com as melhores práticas internacionais. Não se trata de copiar modelos estrangeiros, mas de aprender com a evidência e adaptá-la à realidade concreta do território.

Enquanto especialista em educação e pedagogia, afirmo com convicção: a transformação educativa pode começar na sala de aula, mas não se restringe a ela. Envolve famílias, gestores públicos, universidades, autarquias e a comunidade. Exige decisões baseadas em dados, políticas públicas robustas e compromisso ético.

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A literatura educacional tem mostrado, de forma consistente, que contextos adversos não determinam, por si só, os resultados educativos. Os estudos de John Hattie, sintetizados na obra Visible Learning, mostram que o fator com maior impacto na aprendizagem é a qualidade do ensino e a clareza das estratégias pedagógicas. Isto significa que, independentemente das limitações estruturais, o trabalho do professor em sala de aula continua a ser decisivo. Em municípios como Atalaia, onde algumas escolas enfrentam carências materiais (não invalidando o esforço continuado das localidades em sanar essas mesmas necessidades e limitações), esta evidência é particularmente pertinente: investir na formação contínua de professores pode produzir efeitos transformadores muito superiores aos que, por vezes, se atribuem apenas à infraestrutura.

Por outro lado, as expectativas positivas e elevadas sobre as nossas crianças e jovens (por parte dos professores, pais/responsável legal e outros atores educativos) resultam, geralmente, num melhor desempenho, atuando como uma “profecia autorrealizável”. Esta ideia foi explorada e popularizada, sobretudo pelo psicólogo Robert Rosenthal, como o Efeito Pigmaleão, o qual demonstrou que crenças positivas impulsionam resultados, enquanto expectativas baixas geram desempenho inferior – Efeito Golem (cf. Rosenthal & Jacobson)

Mas, os estudantes não são apenas recetores de informação, formação e de expetativas de outrem. A investigação de Carol Dweck, divulgada na obra Mindset, evidencia que as crenças dos alunos sobre a sua própria capacidade influenciam fortemente o seu desempenho. Em regiões onde gerações sucessivas cresceram a ouvir que “as oportunidades são escassas”, promover uma mentalidade de crescimento não é um detalhe pedagógico — é uma intervenção social estruturante. Ensinar uma criança de Atalaia que a inteligência se desenvolve com esforço, orientação, persistência (por vezes, muita resiliência) e prática deliberada pode contribuir para quebrar ciclos intergeracionais de baixa expectativa.

Os dados internacionais recolhidos pela Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), através do programa Programme for International Student Assessment (PISA), demonstram ainda que os sistemas educativos que combinam equidade e exigência obtêm melhores resultados globais. Países que investiram na valorização docente, na coerência curricular e na redução das desigualdades não o fizeram por idealismo abstrato, mas por estratégia baseada em evidência.

A educação transforma não apenas indicadores estatísticos, mas realidades humanas. Num contexto como o de Atalaia — marcado por desafios socioeconómicos, mas também por forte identidade cultural e laços comunitários profundos — a escola pode ser o principal espaço de mobilidade social e de construção de cidadania crítica e ativa.

A investigação em competências socioemocionais (área na qual defendi o meu Relatório de Mestrado) reforça que fatores como autorregulação, perseverança e sentido de pertença podem influenciar o sucesso acadêmico tanto quanto às aprendizagens curriculares. Em comunidades onde muitas crianças enfrentam vulnerabilidades familiares ou económicas, fortalecer estas competências pode ser decisivo para prevenir o abandono escolar precoce.

Na nova era dos “nativos digitais” (cf. Marc Prensky), é essencial evitar um equívoco recorrente: a tecnologia, por si só, não resolve problemas estruturais. A evidência científica é clara ao demonstrar que dispositivos digitais apenas produzem impacto significativo quando integrados numa estratégia pedagógica coerente e acompanhados de formação docente consistente.

Em conclusão, considero que o reforço do investimento em educação e o suporte aos profissionais, bem como as associações e iniciativas que contribuem para a formação integral dos jovens, desde associações na área do voluntariado, inovação social, empreendedorismo, atividades extracurriculares, deve ser tido pelos decisores de Atalaia como prioridade estratégica para o desenvolvimento sustentável da cidade. Criar uma rede educativa e formativa que se estende para além dos limites das “paredes” das escolas é um passo desejável para o progresso contínuo dos atalaienses, do qual muito me orgulho de poder chamar “meu povo”. Cada criança carrega consigo capacidades que ainda não conhecemos e talentos que (talvez) nem ela própria reconheça. Se tivermos a coragem de acreditar no potencial das nossas crianças e jovens, estaremos não apenas a transformar trajetórias individuais, mas a redesenhar o destino coletivo da nossa terra. A ciência já demonstrou o poder transformador da educação; resta saber se teremos, enquanto comunidade, a lucidez e a coragem de a colocar no centro das nossas prioridades coletivas.

Fontes consultadas:

Censo Escolar
Dweck, C. S. (2006). Mindset: The new psychology of success. Random House.
Hattie, J. (2009). Visible learning: A synthesis of over 800 meta-analyses relating to achievement. Routledge.
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)
Ministério da Educação (MEC)
Organisation for Economic Co-operation and Development Prefeitura Municipal de Atalaia
Prensky, M. (2001). Digital natives, digital immigrants. MCB University Press.
(Artigo originalmente publicado na revista On the Horizon, 9(5), 1–6.)
Rosenthal, R., & Jacobson, L. (1968). Pygmalion in the classroom: Teacher expectation and
pupils’ intellectual development. Holt, Rinehart & Winston.

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Hugo Lima
Hugo Lima
Hugo Sarmento de Lima, natural de Atalaia, estado de Alagoas, vive em Portugal desde janeiro de 2012. É Licenciado e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, tendo sido distinguido com o Prémio de Melhor Estudante Finalista em Ciências da Educação no ano de 2020, bem como tendo integrado o Quadro de Mérito (5% melhores estudantes) desta universidade.

Ao longo do seu percurso profissional adquiriu experiência em diferentes áreas, incluindo atividade comercial no ramo imobiliário, gestão administrativa na SPFIE — Associação Portuguesa de Fratura e Integridade Estrutural, gestão de projetos de formação financiados na Akto – Direitos Humanos e Democracia, onde exerce atualmente funções como Vogal do Conselho Fiscal.

Desde 1 de março de 2023 desempenha funções na Universidade de Coimbra como Gestor de Programas de Captação de Estudantes na Universidade de Coimbra, Gestor de Eventos e, mais recentemente, Gestor de Programas de Empreendedorismo.

Paralelamente, mantém um percurso ativo no associativismo e na cultura, tendo sido músico executante em bandas filarmónicas durante mais de seis anos e atleta federado. Integrou os órgãos sociais do Coro Sinfónico Inês de Castro, onde exerceu o cargo de Tesoureiro da Direção, e é atualmente Vogal da Direção e Representante de Naipe do Conselho Artístico da Associação Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, destacando-se pelo seu envolvimento na promoção cultural e académica e por um perfil marcado pela ambição e persistência.
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