
Falar de educação é, inevitavelmente, falar de futuro. Mas quando essa reflexão parte de Atalaia, no coração do Estado de Alagoas, ela ganha um significado ainda mais fundamental para mim: trata-se de pensar no futuro das nossas crianças, das nossas famílias e da própria identidade da região.
Em jeito de testemunho autobiográfico, para o caso de ser um exemplo útil a algum/a jovem que leia estes parágrafos, deixo um brevíssimo resumo de como o poder transformador da educação mudou a minha vida (para melhor!), como filho de Atalaia: tendo realizado a Educação Infantil e o Ensino Fundamental em Atalaia, emigrei e realizei o Ensino Médio e o Ensino Superior (Licenciatura e Mestrado) em Portugal. No Ensino Superior obtive a distinção (prémio) de Melhor Aluno Finalista do meu curso, bem como integrei o Quadro de Mérito da Universidade de Coimbra. Não obstante, seria contraditório considerar apenas a componente acadêmica como referência de sucesso. Outros fatores foram igualmente determinantes, cumulativamente, para aquilo que considero um percurso de sucesso até aqui: desde a educação informal no seio familiar, passando pela participação socialmente ativa em contextos comunitários (Bandas Filarmónicas, Orquestra, Atletismo, Coros, Voluntariado, etc.), até a educação não formal (para obtenção de competências práticas, desde temáticas como a igualdade de género, até a área comercial, liderança e digital). No fundo, considero que a componente transformadora da minha educação em particular advém da abrangência, diversidade e riqueza das aprendizagens e interações sociais, nos diferentes contextos e âmbitos, a que tive acesso e em que tive oportunidade de dar um contributo proativo.
Atalaia tem feito, sobretudo nos últimos anos, um consistente percurso de melhoria, qualitativa e quantitativa, no incremento do campo educacional: recentemente, conquistou o “Selo Ouro da Alfabetização” pelo segundo ano consecutivo, concedido pelo Ministério da Educação; a adoção da política pública estratégica “Busca Ativa Escolar”, com destaque a nível nacional e reforçada localmente a nível municipal por protocolo pela Prefeita Ceci. Considero que Atalaia pode e deve seguir esse caminho, reforçando as áreas mais deficitárias e apoiando as famílias dos estudantes, visto que o contexto onde as nossas crianças e jovens crescem e estão a maior parte dos seus dias, reveste-se de crucial importância para o seu desenvolvimento saudável e para o sucesso (acadêmico e não só!). Só com uma estratégia consistente de capacitação e melhoria contínua — dos estudantes, das famílias e das estruturas educativas — poderemos alcançar uma educação de excelência, um município desenvolvido e sermos um farol para o Estado de Alagoas! Temos muitos talentos em Atalaia, mas devemos criar as condições e oportunidades para que floresçam e deem frutos.
Não é difícil encontrarmos casos em que estudantes atalaienses têm sido bem-sucedidos em diversos eventos, olimpíadas educacionais (relacionadas com alguma área do saber ou mais genéricas e transversais), o que dá destaque à qualidade do ensino no município e a sua subida em índices e rankings relacionados com o nível e qualidade da educação. No entanto, o desafio não é simplesmente melhorar posições em rankings nacionais. É construir um projeto educativo que reconheça as especificidades locais — culturais, sociais e económicas — e, simultaneamente, dialogue com as melhores práticas internacionais. Não se trata de copiar modelos estrangeiros, mas de aprender com a evidência e adaptá-la à realidade concreta do território.
Enquanto especialista em educação e pedagogia, afirmo com convicção: a transformação educativa pode começar na sala de aula, mas não se restringe a ela. Envolve famílias, gestores públicos, universidades, autarquias e a comunidade. Exige decisões baseadas em dados, políticas públicas robustas e compromisso ético.
A literatura educacional tem mostrado, de forma consistente, que contextos adversos não determinam, por si só, os resultados educativos. Os estudos de John Hattie, sintetizados na obra Visible Learning, mostram que o fator com maior impacto na aprendizagem é a qualidade do ensino e a clareza das estratégias pedagógicas. Isto significa que, independentemente das limitações estruturais, o trabalho do professor em sala de aula continua a ser decisivo. Em municípios como Atalaia, onde algumas escolas enfrentam carências materiais (não invalidando o esforço continuado das localidades em sanar essas mesmas necessidades e limitações), esta evidência é particularmente pertinente: investir na formação contínua de professores pode produzir efeitos transformadores muito superiores aos que, por vezes, se atribuem apenas à infraestrutura.
Por outro lado, as expectativas positivas e elevadas sobre as nossas crianças e jovens (por parte dos professores, pais/responsável legal e outros atores educativos) resultam, geralmente, num melhor desempenho, atuando como uma “profecia autorrealizável”. Esta ideia foi explorada e popularizada, sobretudo pelo psicólogo Robert Rosenthal, como o Efeito Pigmaleão, o qual demonstrou que crenças positivas impulsionam resultados, enquanto expectativas baixas geram desempenho inferior – Efeito Golem (cf. Rosenthal & Jacobson)
Mas, os estudantes não são apenas recetores de informação, formação e de expetativas de outrem. A investigação de Carol Dweck, divulgada na obra Mindset, evidencia que as crenças dos alunos sobre a sua própria capacidade influenciam fortemente o seu desempenho. Em regiões onde gerações sucessivas cresceram a ouvir que “as oportunidades são escassas”, promover uma mentalidade de crescimento não é um detalhe pedagógico — é uma intervenção social estruturante. Ensinar uma criança de Atalaia que a inteligência se desenvolve com esforço, orientação, persistência (por vezes, muita resiliência) e prática deliberada pode contribuir para quebrar ciclos intergeracionais de baixa expectativa.
Os dados internacionais recolhidos pela Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), através do programa Programme for International Student Assessment (PISA), demonstram ainda que os sistemas educativos que combinam equidade e exigência obtêm melhores resultados globais. Países que investiram na valorização docente, na coerência curricular e na redução das desigualdades não o fizeram por idealismo abstrato, mas por estratégia baseada em evidência.
A educação transforma não apenas indicadores estatísticos, mas realidades humanas. Num contexto como o de Atalaia — marcado por desafios socioeconómicos, mas também por forte identidade cultural e laços comunitários profundos — a escola pode ser o principal espaço de mobilidade social e de construção de cidadania crítica e ativa.
A investigação em competências socioemocionais (área na qual defendi o meu Relatório de Mestrado) reforça que fatores como autorregulação, perseverança e sentido de pertença podem influenciar o sucesso acadêmico tanto quanto às aprendizagens curriculares. Em comunidades onde muitas crianças enfrentam vulnerabilidades familiares ou económicas, fortalecer estas competências pode ser decisivo para prevenir o abandono escolar precoce.
Na nova era dos “nativos digitais” (cf. Marc Prensky), é essencial evitar um equívoco recorrente: a tecnologia, por si só, não resolve problemas estruturais. A evidência científica é clara ao demonstrar que dispositivos digitais apenas produzem impacto significativo quando integrados numa estratégia pedagógica coerente e acompanhados de formação docente consistente.
Em conclusão, considero que o reforço do investimento em educação e o suporte aos profissionais, bem como as associações e iniciativas que contribuem para a formação integral dos jovens, desde associações na área do voluntariado, inovação social, empreendedorismo, atividades extracurriculares, deve ser tido pelos decisores de Atalaia como prioridade estratégica para o desenvolvimento sustentável da cidade. Criar uma rede educativa e formativa que se estende para além dos limites das “paredes” das escolas é um passo desejável para o progresso contínuo dos atalaienses, do qual muito me orgulho de poder chamar “meu povo”. Cada criança carrega consigo capacidades que ainda não conhecemos e talentos que (talvez) nem ela própria reconheça. Se tivermos a coragem de acreditar no potencial das nossas crianças e jovens, estaremos não apenas a transformar trajetórias individuais, mas a redesenhar o destino coletivo da nossa terra. A ciência já demonstrou o poder transformador da educação; resta saber se teremos, enquanto comunidade, a lucidez e a coragem de a colocar no centro das nossas prioridades coletivas.
Fontes consultadas:
Censo Escolar
Dweck, C. S. (2006). Mindset: The new psychology of success. Random House.
Hattie, J. (2009). Visible learning: A synthesis of over 800 meta-analyses relating to achievement. Routledge.
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)
Ministério da Educação (MEC)
Organisation for Economic Co-operation and Development Prefeitura Municipal de Atalaia
Prensky, M. (2001). Digital natives, digital immigrants. MCB University Press.
(Artigo originalmente publicado na revista On the Horizon, 9(5), 1–6.)
Rosenthal, R., & Jacobson, L. (1968). Pygmalion in the classroom: Teacher expectation and
pupils’ intellectual development. Holt, Rinehart & Winston.
