
Lembranças.
Há cidades que permanecem apenas no mapa. Outras permanecem na alma.
Atalaia é assim para mim.
O tempo passou, a vida me levou por outros caminhos e construí uma trajetória na educação, mas a cidade onde vivi minha infância continua viva dentro de mim.
Ela aparece nas lembranças simples: no cheiro da merenda da escola, nas brincadeiras nas ruas, nas conversas nas calçadas, nas festas populares, no Rio Paraíba, na venda de meu pai, Seu Paulo, e nas pessoas que ajudaram a formar quem sou.
A memória não guarda apenas grandes acontecimentos. Muitas vezes são os pequenos detalhes que permanecem: uma frase de uma professora, um perfume, uma pedra no caminho, o cheiro do café, o som das quadrilhas e o trajeto até a escola.
São lembranças simples.
Mas, nunca pequenas.
Escrevo para homenagear uma cidade que ajudou a construir minha história e para reencontrar um tempo em que as ruas eram espaços de convivência, as festas reuniam famílias e a comunidade compartilhava suas alegrias.
Não pretendo contar a história oficial de Atalaia, mas a história vivida por um menino que observava sua cidade com encantamento e gratidão.
Hoje não retorno pelas estradas.
Retorno pelas lembranças.
Convido você a caminhar comigo por essa Atalaia que continua viva na memória.
O Girador – O bairro onde a infância acontecia

Se hoje alguém me perguntasse onde vivi minha infância, eu responderia sem pensar duas vezes: no Girador.
Mas, logo em seguida, faria uma correção.
O Girador não era apenas um bairro.
Na minha memória, ele era um parque de diversões, um zoológico, um shopping, um campo de futebol, um teatro ao ar livre, uma escola de convivência, e um grande quintal onde toda criança era livre para brincar.
Quem não viveu aquele tempo talvez tenha dificuldade para compreender.
Naqueles anos, as ruas pertenciam às crianças.
As calçadas pertenciam às famílias.
E a cidade inteira parecia conhecer cada menino e cada menina pelo nome.
Era impossível caminhar pelo Girador sem encontrar alguém sentado na porta de casa conversando com os vizinhos. As cadeiras ocupavam as calçadas no fim da tarde, enquanto as histórias se prolongavam noite adentro. Não existia televisão ligada em cada cômodo, muito menos celulares desviando a atenção das pessoas. O maior entretenimento era justamente estar junto.
As crianças aproveitavam cada espaço da rua.
Qualquer pedaço de chão servia para uma brincadeira.
Qualquer calçada virava arquibancada.
Qualquer árvore oferecia sombra para uma nova aventura.
O futebol era quase uma obrigação. Bastava aparecer uma bola para que os times fossem formados rapidamente. Jogávamos na rua ou, quando possível, na praça. Ali estavam Tito, Pedro, Dinho, Henrique, Riva, Juninho, Marcelo, Galeguinho, Marquinhos, Toinho, Sandro e tantos outros companheiros de infância que ajudaram a transformar aqueles dias em lembranças inesquecíveis.
As traves quase nunca eram de verdade.
Às vezes bastavam duas pedras.
Outras vezes, dois chinelos.
Em muitas partidas, eram as laterais das casas que delimitavam o gol.
A imaginação completava aquilo que faltava.
Nem sempre a bola obedecia aos nossos planos.
Bastava um chute mais forte para ela ultrapassar os limites e bater no portão de algum vizinho.
Era nesse momento que alguém gritava, em meio às gargalhadas:
— Ele furou! Ele furou...
No Girador, ninguém precisava marcar horário para encontrar os amigos.
Eles simplesmente apareciam.
Cada dia reservava uma nova história.
Durante o dia, o bairro respirava tranquilidade.
À noite, parecia transformar-se completamente.
As calçadas enchiam-se de gente.
As conversas atravessavam horas.
Os mais velhos contavam histórias, lembravam acontecimentos antigos, comentavam as novidades da cidade e faziam da própria vizinhança um grande encontro comunitário.
Havia também os bingos nas calçadas, organizados com simplicidade, mas sempre cheios de animação. Mais importante do que o prêmio era a oportunidade de reunir as pessoas.
Hoje chamamos isso de convivência.
Naquele tempo, chamávamos simplesmente de vida.
Outro personagem muito presente na memória do Girador é Seu Zé Neto.
Ao lado de Dona Salete, ajudava a manter vivas muitas das tradições culturais do bairro. Eram eles que animavam boa parte dos folguedos populares que marcavam o calendário da comunidade.
No período natalino, o pastoril reunia crianças, jovens e adultos. No São João chegava a vez da Quadrilha Quebra Coco, do coco de roda e de tantas outras manifestações que faziam parte da identidade cultural de Atalaia.
Os ensaios eram quase tão divertidos quanto as apresentações.
Era impossível participar sem sentir alegria.
Os garotos disputavam discretamente quem seria o par das meninas mais admiradas da rua.
Entre todas elas, um nome permaneceu guardado na minha memória: Danda. Quem lembra? Eu lembro.
Essas pequenas recordações parecem insignificantes para quem as observa de fora.
Para mim, são preciosas.
São elas que dão cor à infância.
E mostram que a felicidade costumava morar em coisas muito simples.
A casa que morei
A esquina onde a minha infância criou raízes
Existem casas que servem apenas de moradia.
Outras se transformam em parte da própria vida de quem as habitou.
Até hoje, quando fecho os olhos, consigo caminhar por seus corredores como se nunca tivesse saído dali. A memória conhece cada cômodo, cada porta, cada janela. O tempo passou, mas dentro de mim aquela casa continua exatamente onde sempre esteve.
Era uma casa de esquina.
Para muitos, era simplesmente a casa de Seu Paulo e Dona Cícera.
Para outros, era a conhecida Venda do Tala.
Para mim, era o lugar onde a vida acontecia.
Ali vivi os melhores anos da infância.
Ali cresci ao lado dos meus irmãos Marcos Paulo, Ana Paula e Cristiane, sob os cuidados de meus pais.
Meu pai era um homem trabalhador. Atrás do balcão da venda, vendia um pouco de tudo. O pequeno comércio fazia parte da rotina da vizinhança e, durante todo o dia, era ponto de encontro de amigos, conhecidos e moradores do bairro. Mais do que comprar alguma mercadoria, as pessoas iam conversar, contar as novidades, jogar sinuca, trocar ideias e colocar a conversa em dia.
A venda era quase uma extensão da rua ou melhor de todo o bairro.
Quem chegava sempre encontrava alguém.
Enquanto meu pai atendia os fregueses, minha mãe, Dona Cícera, dividia seu tempo entre os afazeres da casa e a ajuda no comércio. Era uma mulher dedicada, que cuidava da família com a mesma atenção com que recebia quem chegava à nossa porta.
Nossa casa nunca parecia vazia.
Sempre havia movimento.
Sempre havia gente.
Sempre havia histórias.
Na frente da casa, meu pai teve uma ideia que, na época, parecia apenas uma solução prática: cercou todo o terreno utilizando pedaços de trilhos de trem, fincando cada estaca com muito esforço. Além de delimitar a propriedade, a cerca ajudava a proteger a casa do movimento dos carros que passavam pela rua. Durante a infância, aqueles trilhos de ferro eram apenas parte da paisagem. Eu passava por eles todos os dias sem imaginar que, um dia, se transformariam em testemunhas silenciosas da minha própria história.
Hoje, quando volto às lembranças, percebo que cada uma daquelas estacas guarda um pedaço da nossa vida. Elas presenciaram as brincadeiras de criança, as conversas no fim da tarde, a chegada dos amigos, o movimento da venda de meu pai, as festas do bairro e tantos momentos de alegria vividos por nossa família.
O ferro resistiu ao tempo.
As lembranças também.
Bem na esquina havia outro detalhe que talvez passasse despercebido por quem passava apressado, mas que jamais saiu da minha memória.
Era o bueiro.
Sobre ele permanecia uma grande pedra que ficou ali durante décadas.
Para muitos, era apenas uma pedra.
Para mim — e para tantos que viveram aquela época — ela era uma silenciosa guardiã da Rua Doutor Olavo Cahet. Dali, parecia observar o crescimento das crianças do bairro, as bicicletas cruzando a rua, as partidas de futebol improvisadas, as conversas dos adultos nas calçadas, os preparativos para os ensaios da quadrilha junina, a movimentação das festas da Rua de Cima e da Festa de Santa Luzia, além do constante entra e sai de fregueses na venda de meu pai.
Talvez ninguém mais olhe para aquela pedra da mesma maneira.
Mas, para quem viveu aqueles dias, ela continua sendo uma testemunha silenciosa de um tempo em que a rua era a extensão da nossa casa e a infância acontecia diante dos nossos olhos.
Algumas pessoas colecionam fotografias.
Minha memória coleciona lugares.
E aquela pedra faz parte dessa coleção.
A casa também era ponto de encontro das crianças do bairro.
As laterais serviam de traves para as partidas de futebol improvisadas. Bastava aparecer uma bola para que a rua se transformasse em estádio. Não existia horário marcado. As crianças simplesmente chegavam. Quando percebíamos, a brincadeira já havia começado.
Era praticamente impossível alguém do Girador não conhecer a Venda do Paulo.
Ela fazia parte da vida do bairro.
Assim como meu pai.
Assim como minha mãe.
Assim como nossa família.
Foi também naquela casa que recebi um apelido carinhoso que me acompanha até hoje entre algumas pessoas mais antigas.
Chamavam-me de Coruripe.
O apelido nasceu porque eu gostava de passar muito tempo na casa de uma tia. Nunca enxerguei aquilo como brincadeira de mau gosto. Pelo contrário. Era uma demonstração do carinho típico das cidades pequenas, onde quase todo mundo ganha um apelido e acaba sendo conhecido por ele durante muitos anos.
Quando penso naquela casa, não me lembro apenas das paredes.
Lembro das pessoas.
Do movimento da venda.
Das conversas.
Da dedicação de meus pais.
Da infância dividida com meus irmãos.
Das brincadeiras na esquina.
Da pedra sobre o bueiro.
Dos trilhos de trem transformados em cerca.
Lembro, sobretudo, da sensação de pertencimento.
Aquela casa não era apenas o lugar onde eu morava.
Era o lugar onde minha história começava todos os dias.
Hoje compreendo que uma casa pode permanecer de pé por muitos anos.
Mas existe outra maneira de ela continuar existindo.
Enquanto houver alguém para recordar seus corredores, suas portas, suas janelas e as pessoas que lhe deram vida, ela nunca deixará de ser um lar.
E a casa onde vivi minha infância continuará sendo, para sempre, o endereço mais bonito da minha memória.
A CASA DE ZÉ NETO

Algumas casas guardam histórias.
A casa de Seu Zé Neto guardava cultura. Casa ampla , bem organizada e que transmitia alegria e paz.
Sua família era conhecida pela alegria, pela inteligência e pelo espírito comunitário. Em uma época em que poucas residências possuíam telefone, o da família estava sempre à disposição dos vizinhos, reforçando o sentimento de solidariedade que marcava o bairro.
Com saudade lembro de Dona Maria, sempre muito carinhosa comigo. Era uma mulher prestativa e fazia todos se sentirem bem-vindos.
Naquela casa, a cultura fazia parte da rotina do pequeno Dolinha se destacava na dança, no canto, na fala e nas apresentações culturais. Na verdade, todos participavam e ajudavam a manter vivas as tradições populares de Atalaia.
Seu Zé Neto e sua esposa dona Salete também deixaram suas marcas como um dos grandes incentivadores da cultura local, reunindo pessoas, organizando apresentações e fortalecendo o espírito comunitário do Girador.
O Rio Paraíba e o Cinema de Seu Pedro

As águas que corriam livres e as noites que ganhavam vida na tela.
O Rio Paraíba faz parte das lembranças mais bonitas da minha infância.
Naquele tempo, suas águas ainda respiravam. Eram limpas, convidativas e faziam parte da rotina de muitas famílias. O rio não era apenas uma paisagem. Era um lugar de encontros, aventuras e liberdade.
Quantas vezes caminhei por suas margens...
Quantas vezes mergulhei em suas águas...
Quantas vezes saí para pescar sem me preocupar com o tempo...
O Rio Paraíba fazia parte da vida da cidade.
Ali aprendíamos a respeitar a natureza. Caminhávamos pelas ribanceiras observando tudo ao nosso redor, enquanto o rio seguia seu curso em direção à Mataraca, um lugar que guardo com muito carinho na memória pela fartura de frutas e pela beleza da paisagem.
No caminho existia uma velha ponte, já bastante marcada pelo tempo. Quando menino, eu costumava observá-la imaginando quantas histórias ela teria presenciado. Sempre pensei que fosse uma construção muito antiga, talvez dos tempos da colonização. Não sabia ao certo, mas aquelas estruturas envelhecidas despertavam minha imaginação e me faziam criar histórias sobre o passado.
As caminhadas até a Mataraca eram verdadeiras aventuras.
O caminho de areia e barro pisado fazia parte da experiência. Era uma longa caminhada, mas para nós era diversão, descoberta e liberdade.
Era comum procurarmos a oliveira, uma pequena fruta parecida com a uva, muito apreciada por nós naquela época. Logo no início do percurso, próximo à oficina do Seu Acioli, encontrávamos grandes pés de amêndoas. Derrubar aquelas amêndoas exigia paciência e força. Muitas vezes usávamos pedras ou pedaços de madeira para conseguir alcançar os frutos.
Era uma diversão simples.
Mas, para nós, parecia uma grande expedição.
Muitas dessas caminhadas aconteciam ao lado do meu amigo Tito Brás. Íamos conversar, pescar e aproveitar o dia. Confesso que nem sempre eu tinha a paciência necessária para esperar o peixe. Às vezes, acabava batendo a vara na água, acreditando que aquilo poderia ajudar. Hoje sorrio ao lembrar da minha ansiedade de criança.
Nessas pescarias também estava presente o saudoso Seu Nino, pai de Tito.
Seu Nino era um homem ligado à natureza, ao trabalho e à família. Era comerciante, acordava cedo todos os dias para cuidar de sua pequena loja e fazia tudo com muita dedicação. Trabalhava para sustentar sua família e era uma pessoa respeitada por todos que conviviam com ele.
Ao seu lado estava Dona Zefinha, uma mulher dedicada, que cuidava da casa e preparava momentos que ficaram guardados na memória. Seu café era especial, assim como suas comidas típicas que reuniam a família ao redor da mesa.
Até hoje consigo lembrar do cheiro do café moído na hora e do vinagre caseiro que ela mesma preparava. São lembranças que permaneceram guardadas muito mais do que qualquer fotografia.
As reuniões familiares na casa de Seu Nino eram momentos especiais.
Pessoas chegavam de diferentes lugares. A casa ficava cheia de conversas, risadas e demonstrações de carinho. Mesmo não sendo da família, eu era recebido com muito acolhimento. Sentia-me parte daquele ambiente, tratado com respeito e afeto.
Mas havia um lugar daquela casa que tinha um encanto especial para mim: o quintal.
Lá estavam o pé de goiaba, as canas caianas e outras frutas que faziam parte daquela paisagem de infância. Seu Nino gostava do plantio, do cuidado com a natureza e daquela relação simples com a terra.
Para uma criança, aquele quintal era um mundo de descobertas.
Era um espaço onde a natureza ensinava, onde as frutas tinham outro sabor e onde a vida parecia acontecer sem pressa.
São lembranças que o tempo não conseguiu apagar.
Assim como não conseguiu apagar outra grande diversão da infância: o cinema de Seu Pedro.
O cinema
Naquela época, ir ao cinema era um verdadeiro acontecimento.
O responsável por fazer aquela magia acontecer era Seu Pedrinho do Cinema, pai do meu amigo Pedro, conhecido pelos amigos como Pedro Júnior.
Tudo era muito diferente dos cinemas modernos.
Não existiam recursos tecnológicos sofisticados. Os filmes eram projetados por equipamentos simples e, algumas vezes, aconteciam interrupções durante a exibição. Quando a fita parava inesperadamente, alguém logo gritava, em meio às gargalhadas da plateia:
— "Olha o roubo, Pedro!"
Era impossível não rir.
Hoje compreendo que aquilo não era culpa de ninguém. Eram as limitações da tecnologia da época. Mas, para nós, crianças, aquele pequeno contratempo fazia parte da diversão.
Ter amizade com Pedro Júnior nos dava um pequeno privilégio. Afinal, seu pai era justamente quem trabalhava no cinema. Para um menino apaixonado por aquelas sessões, isso parecia algo extraordinário.
O cinema era muito mais do que um lugar para assistir a filmes.
Era um ponto de encontro.
Um espaço onde famílias, jovens e crianças compartilhavam emoções diante da mesma tela.
O tempo passou.
O velho cinema encerrou suas atividades e, mais tarde, o prédio deu lugar a uma discoteca.
A cidade mudou.
As tecnologias mudaram.
As formas de diversão também mudaram.
Mas existe algo que permaneceu exatamente igual.
Toda vez que penso no Rio Paraíba ou no antigo cinema de Seu Pedro, volto a ser aquele menino curioso que descobria o mundo caminhando pelas margens do rio, pescando ao lado dos amigos e esperando, ansiosamente, que as luzes se apagassem para mais uma sessão de cinema.
Alguns lugares desaparecem.
Outros continuam existindo para sempre dentro da memória de quem os viveu.
Escola Antônio Amâncio – Entre a escola e as aventuras da infância
Depois dos primeiros anos no Grupo Escolar Floriano Peixoto, uma nova etapa da minha vida escolar começou na Escola Antônio Amâncio.

Diferente da primeira escola, que fazia parte do meu caminho diário a pé, a Antônio Amâncio ficava na Vila de Atalaia, e para chegar até lá era preciso utilizar transporte. O próprio caminho já fazia parte da experiência. O ônibus era uma novidade, uma pequena aventura para nós, crianças, que observávamos a paisagem e sentíamos aquela sensação de descobrir novos lugares.
A escola ficou marcada por momentos especiais.
Lembro do professor Geraldo, de Educação Física, das atividades esportivas, principalmente do futebol na quadra, que reunia os alunos e trazia alegria para os dias escolares. Lembro também das competições de desenho, momentos em que a criatividade ganhava espaço.
Guardo com carinho a lembrança da colega Márcia e do cartão de aniversário que ela fez para mim. Pequenos gestos que o tempo transforma em grandes lembranças.
Também fazem parte dessa fase as primeiras descobertas dos sentimentos da infância, como aquele primeiro amor vivido de maneira simples e inocente, uma lembrança que permanece guardada na memória.
A escola ficava em uma região simples, próxima a um campo de futebol, onde aconteciam muitas partidas. O caminho tinha suas particularidades: ruas de barro, deslocamentos de ônibus e, algumas vezes, a volta era feita caminhando pela Vila de Atalaia ou conseguindo uma carona até a praça principal.
Mas existe outra lembrança especial ligada àquele lugar.
Perto da Escola Antônio Amâncio ficava o Sítio de Bittencourt, um dos lugares que mais despertavam nossas aventuras de infância.
Para mim e meus amigos, aquele sítio era quase um mundo encantado.
Era um lugar de muitas frutas tropicais, de natureza abundante e de descobertas. Passávamos o dia percorrendo seus caminhos em busca de goiabas, jacas, araçás, cajus e tantas outras frutas que faziam parte daquela época.
Havia também uma linda bica, cercada por uma natureza única, com muitos bambus ao redor. Era um lugar especial, onde encontrávamos uma das maiores alegrias da infância: o banho de bica.
Depois de tantas caminhadas e brincadeiras, aquele banho era uma verdadeira recompensa.
O caminho também fazia parte da aventura. Muitas vezes voltávamos pela própria linha do trem ou descíamos pelas ribanceiras dos morros, sempre descobrindo novos caminhos e vivendo a liberdade que a infância proporcionava.
À beira da linha do trem havia também a cana, outro encanto para nós. Eram momentos simples, mas que ficaram registrados como grandes acontecimentos.
Quando o caminho não era o da escola, era o caminho do sítio.
A infância encontrava seus próprios destinos.
Entre a sala de aula, a linha do trem, as frutas, a bica e as aventuras com os amigos, a Escola Antônio Amâncio tornou-se muito mais do que um lugar de aprendizado.
Ela foi também uma porta para novas descobertas e para lembranças que continuam vivas dentro de mim.
Atalaia é feita de história, mas também de memórias. Suas ruas, escolas, festas, rios e pessoas guardam marcas de muitas gerações.
Ao recordar minha infância, reencontro não apenas a minha própria história, mas um pedaço da história de uma cidade que ajudou a formar quem sou.
O tempo passou, muitas coisas mudaram, mas permanecem vivas as lembranças de uma Atalaia simples, acolhedora e cheia de histórias.
Porque existem lugares que a gente deixa.
E existem lugares que nunca deixam a gente.
Atalaia continua morando em mim.
A Praça da Diva e a Pipoca do Seu Sebastião
A Praça da Diva, em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição e às margens do Rio Paraíba, era um dos principais pontos de encontro de Atalaia. Minha mãe dizia que fui batizado nessa igreja com o nome de José Charles, porque nasci "laçado", conforme a crença da época. Até hoje fico curioso para saber se esse nome ainda consta no livro de batismos.
Bem perto dali ficava o hospital de meu padrinho de batismo, Aluísio Lopes de Medeiros, homem honrado e de personalidade da época.
A praça também guardava outros encantos. Na Padaria da Diva, o cheiro do pão quentinho era irresistível. Ao lado, o velho orelhão funcionava com fichas telefônicas e era palco das travessuras das crianças, que viviam passando trotes.
Mas o que realmente marcava as noites era o carrinho de pipoca do Seu Sebastião. Ainda hoje sinto o cheiro da pipoca no ar. Homem simples e generoso, ele, de vez em quando, distribuía torresmos às crianças, tornando aquele cantinho da praça ainda mais especial.
São lembranças simples, mas que continuam vivas na minha memória.
