Cidade Girador

Artigo I Saudades de uma Atalaia de outrora. Por: Professor Charles Douglas

Neste artigo o Professor Charles Douglas, relata com muito saudosismo um Girador de festas e de muita tradição.

22/05/2021 20h18 Atualizada há 3 semanas
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Por: Phablo Monteiro
"Ah, que saudades dos tempos de outrora, do Girador animado, do carnaval arrojado, da ciranda de roda", Professor Charles Douglas. Fonte: Google Maps.

Ah, que saudades dos tempos de outrora, do Girador animado, do carnaval arrojado, da ciranda de roda.

Ao fechar os olhos, retorno a década de 80 e começo a lembrar as festas dos padroeiros, os parques a andar. Olha menino, escuta! O esquenta muiê a tocar, a banda está vindo, é a festa de Santa Luzia, era a banda de pífano do Pilar. 

Os garotos em suas peraltices, pegavam um limão e esperava a banda tocar, chegava perto do pifeiro e o limão começava a chupar, coitado! Salivava tanto e o som do pife não saia, o senhor ficava valente com o menino traquino que saia correndo de mansinho pra não entrar nesta fria. O prato soava longe, os moleques corriam com força, um auxilio pra Santa Luzia?! 

A moça com o quadro da Santa gritava, um homem com ignorância dizia: - só dô auxílio se Luzia vir pegar na minha mão! Ele afainado, gaiato e falador pensava que ficaria assim e a resposta ele teve, voltou, a mocinha disse logo: Que Deus te abençoe senhor, ela não precisa do auxílio, estamos pedindo pra fazer a sua festa, se não quer dar não tem problema, que Deus assim mesmo irá te abençoar.

O homem com a cara feia se virou, gaiato ainda continuou e o povo observava a reação, cidadão desceu a calçada, não viu uma casca de banana no chão, levou uma grande queda, a gargalhada se ouvia, o povo que ria e dizia: vá brincar com Luzia!!

Falando em festa de Santa Luzia, era a maior da cidade. Meu Girador ficava cheio de gente, a felicidade e não tinha maldade, era o terço, a missa na trezena, o parque na rua Ernesto Lopes que descia até a Elpídio Gondim. Roda gigante, carrinho, patinhas, bingo e os barcos de longe se via, puxa a corda barco sobe, tudo era alegria. Tinha o tiro ao alvo, seu Geo e Zefinha vendendo as bexigas com desenho, comidas típicas de monte, o sorvete da Zeneide e Cicero Batinga era pra comprar na fila. Dona Maria fazia pescaria, quem quer ganhar um caminhão! Quando pescava saia pipoca, ximbra e chiclete, era tanta a diversão. Tinha rolete de cana sendo vendido, maçã do amor e até megafone no correio do amor. Tinha leilão de todo jeito, galinha, doce, e bolo. A festa era tão animada que algumas vezes o parque ficava de Santa Luzia até o ano novo.

Mas, voltando aos relatos, não posso esquecer o carnaval, os bobos e os bois do Leondas que chamava a atenção da galera, alguns corriam com medo, outros queriam ir atrás da baderna que começava no sábado de Zé Pereira, com maisena, farinha, ovo e as vezes lama: começava o carnaval do mela, mela.

Não foi do meu tempo, mas ouvi muito falar, neste lugar, até escola de samba a sambar. Seu Zé Neto e Dona Salete gostavam de animar o coreto, em todos os meses do ano eram grandes os folguedos. Pastoril das mocinhas no Natal, quadrilha Quebra Coco e o coco de roda no São João aqui era animado, quando não tinha nada inventava uma corrida de saco, quebra pote, um pau de sebo, mas tinha que animar de janeiro a janeiro.

Pastoril mirim, de moças bonitas e muito belas, de idosos nos anos 2000, mas tudo tinha que ter festa. Mas, vamos pra o 01 de maio, que começava a agitação, o convite era garantido, quem quer ir tinha que ir para o Ernesto Lopes, todos corriam para o grupinho, o ensaio da quadrilha começava, seu Zé Neto ditava as regras, ai daquele que a quebrava. Os pais só confiavam neles, se recebesse reclamação apanhava.

Roupas de chita, calça remendada, Tutu, Auderita e Maria Bolo eram as costureiras procuradas. Corta, faz remenda a roupa pra quadrilha abençoada. 

Lembrando que o mês de maio tinha o mês mariano na Igrejinha. Tia Barros, Dona Aurelina, Salete Rocha começava a ladainha. Todos ficavam na porta esperando os louvores terminarem, pra começar o ensaio da quadrilha.

No último dia do mês, ensaio não se tinha, escolhiam logo algumas pessoas pra coroação de Maria, era anjo de todo lado dentro da Igrejinha. Os foguetes a subirem, comprados no seu Apolinário, era chuva, trovão e raio, era bom de se viver. Terminado aquela devoção, todos já sabiam que era tempo do grande São João. O povo logo se animava, cortar bandeirolas de papel seda quando se tinha dinheiro, quando não corta revista, livro e jornal. Colava com cola de farinha, bambu era tempo de enfeitar, faziam fogueiras nas portas, e tinha que colocar o Luiz Gonzaga pra tocar. Ensaiava o mês de maio pra dançar no São João, a molecada toda animada pra apresentar a quadrilha na rua Olavo Cahet, na casa de Cultura. No palhoção da quadra na Fazenda Mataraca, todos iam em cima do caminhão. Vamos alegrar minha gente, menina balança a saia, seu Zé Neto chamava a quadrilha e todos no passo obedecia.

Sinho, filho de dona Lourdes Caiambú, era outra figura. Terminando nossa quadrilha ele inventava mais uma, homem vestido de mulher, era quadrilha matuta. Colocava um caldeirão com feijoada, uma bananeira ao lado da casa decorava tudo direito, era tudo com grande respeito. No carnaval não era diferente, ele fazia um cenário, dona Lourdes sua mãe ria, começava a criar um monte de bonecos gigantes, parecia que estávamos em Olinda.

Até xangô aqui tinha, não podia faltar. Tinha o dia de Cosme e Damião, era uma disputa daqui pra lá. Menino vinha de todos os lados pra confeito pegar, Dona Frinha e seu Benedito, corre pro Leonda, dona Benedita começou a dar e ainda tinha a dona Neide a zelar, pirulito, pipoca de milho e brinquedo, era um corre corre pra valer.

E a Banda Skema 3 que tocava sem parar, Luizinho organizava tudo, era banda famosa do lugar. Primeiro vinha a Manhata tocando em todo evento, ano novo no clube primeiro animada. Depois tinha a romântica internacional no momento, Skema 3 tocava de tudo, era Girador barulhento.

Tudo era motivo de festa, voltarei pra o carnaval, neste bairro era tão animado que tinha blocos de montão. Lero Lero, Cachaça Veneno mais o melhor saia bem alinhado, o bloco dos Biket´s enternado, era só elegância, isso que era infância que o povo de hoje não guarda na lembrança.

De tudo aqui tinha: padaria do seu Manoel, barbearia do Brinquinho, os Bares do Zé Otavio, do Ciço Pedro, do Tonho, e o seu Eurico, Cícera do Biu, Seu Paulo, e o jogo do bicho? Zé Aristel, e seu Batinga, o mercadinho da dona Leda e a venda do seu Bené. Dona Zefinha e suas brasileiras no Cabo Duro, Dona Maroca, Dona Nazinha e seus pirulitos de açúcar, e o depósito do São Jorge? Era do seu Zé Jorge, Anilson e Cida com a Tendinha do Estudante, Oficina do Sr. Zé Marinho. Fogos, comprar na Dona Rosa. Tinha venda da Dona Berenice, Dona Maria, o flau da Dona Ivonete, Dona Cirlete era outra entusiasta dos folguedos, e o torrado do café? Era com Dona Nem. Lá no fim da Rua Elpídio Gondim ficava a mercearia do Seu Ivan e Dona Cicera, Nado seu filho, era quem embalava a mercadoria. Tirava uma tira de papel bem fina, a gente ia comprar pão, quero três? Ele enganchava um no outro e no meio a triste da tira, se não tivesse cuidado era pão pra todo lado, mas, aquilo sim era vida.

Em setembro tinha romaria, quem vai? No carro do seu Iracy, dona Maria Batinga ou seu Batinga assim a romaria tinha que sair, no caminhão de romeiros, as mulheres de vestido preto, chapéu na cabeça, marmita na mão, farinha com charque e galinha, assim era a missão. Tinha o carro do Jeová e do Dal, quem queria ir pra Juazeiro era com eles que tinham que viajar. Dona Marinete do Seu Chico Porqueiro, quando não podia ir era grande a lamentação, era gente chorando, pois era com bastante emoção, Benção meu Padrinho Cícero, Padroeiro do Sertão.

A televisão já sabe, se não sabem vou contar, era um museu de grande, e preto e branco a apresentar. Colocava uma película ou tela na frente pra cor mudar, quando quebrava pega o carro de mão e bota a danada pra Seu Biu consertar. Era o pai do Talmir, ali consertava a tv e garantia, se não prestar traga de novo pra mim. Eletricista conhecido era Reinaldo Duarte, não posso deixar de fora.

Não foi do meu tempo, mas tenho que falar, Seu Chico Porqueiro além dos porcos que tinha, bicicleta alugava pra andar. Vinha gente de todo lado pra fretar.

Lembrando de todos os casos, não posso deixar quem tanto amei, meu pai Antenor Fernandes que matava porco, era naquela época alegria, dia de sexta ir na caminhonete do Seu Chico Porqueiro, pegar os porcos ou em Viçosa ou no Matadouro, pra sábado matar aqui em casa. Depois que matava sempre tinha a cachacinha, a carne assada e o povo a comprar, ao meio dia chegava a carroça eu subia logo pra o mercado a carne levar.

Dia de domingo ia a estação, lá tinha cavalhada, sabia que nesta Atalaia o segundo lugar que apareceu foi o Girador? O trem entrava de ré e vinha a aranha a agarrar, tirava a carga de cana e o trem seguia sua viagem, pois agora você já sabe que Girador é bom de se morar.

Lava roupas todo mundo chamava, Quitéria da dona Nina, Gel, Vaininha e Dona Ivonete, na Burarema velha de guerra a lavar, começavam logo cedo, pois tinha que lavar, cuidar pra secar e a noite dobrava tudo e ainda tinha que engomar.

Seu Manélucas, Seu Zifredo do carvão. Eram tantas gentes boas que trago no coração. Só nos resta a saudade do tempo que não volta mais não.

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