
Recentes pesquisas de opinião destacam que o maior problema do país para a maioria dos brasileiros é a violência. E foi justamente no período pós divulgação dessa pesquisa que foi deflagrada no Rio de Janeiro, nas comunidades da Penha e do Alemão uma operação policial que tinha como objetivo prender 64 lideranças da facção criminosa Comando Vermelho o CV. A operação apesar de não ter prendido nenhuma das lideranças culminou com a morte de 117 criminosos e quatro policiais.
Depois do fato ocorrido entraram em cena as “narrativas”. Para parlamentares e governadores de oposição ao governo federal a operação teria sido um sucesso. Para o governo federal um desastre. Mas afinal quem está com a razão? A oposição começou a se mobilizar para aprovar leis que classifiquem como grupos terroristas as facções criminosas que atuam no país — como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A população que sofre diretamente com a violência aprovou a ideia e logo uma histeria de integrantes da oposição faziam coro para a aprovação da lei. Mas o que para a oposição parecia uma oportunidade de obter ganhos políticos logo se viu que a verdade não é bem assim como está sendo contada.
Surge novamente uma guerra de narrativas onde a extrema direita range os dentes defendendo enquadrar não apenas CV e PCC, mas todas as facções criminosas como terroristas. E do outro o alto empresariado brasileiro que após ouvir especialistas no assunto como Bem Saul, relator especial da ONU sobre Direitos Humanos e Contraterrorismo, alertou que o uso de legislações antiterrorismo contra grupos criminosos pode abrir caminho para outros tipos de abusos. Nessa mesma linha de Bem Saul, o ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa defende que a simples redesignação de facções criminosas como grupos terroristas além de não ter efeitos práticos no combate ao crime organizado teria um impacto indesejado na economia brasileira. Somado a isso está o interesse do responsável pelo setor de sanções do Departamento de Estado norte americano, David Gamble, que solicitou formalmente que o Brasil adotasse a designação de terroristas ao PCC e ao CV. Segundo ele essas facções criminosas têm conexões com cartéis internacionais e representam uma ameaça à segurança dos EUA. Pedido esse que foi rejeitado pelo governo brasileiro alegando que as facções não se enquadram na definição de terrorismo da legislação brasileira. Então, temos de um lado os Estados Unidos e a extrema direita defendendo o enquadramento das facções criminosa a lei brasileira como terroristas, e do outro os empresários que apesar de defender que bandido bom é bandido morte vê com desconfiança a provação dessa lei. E para melhorar o nosso entendimento não esqueçamos que em agosto, a Polícia Federal deflagrou três operações (Carbono Oculto, Quasar e Tank) que demonstraram o quão profunda são essas conexões entre o crime organizado e a economia nacional. A estimativa da PF é de que um esquema operado pelo PCC tenha movimentado pelo menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. As conexões do tráfico se estendem de postos de gasolina, usinas de cana de açúcar até as fintechs e a suposta participação de fundos de investimento sediados nas imediações da Faria Lima para a blindagem do patrimônio do PCC contra eventuais investigações. E todos eles estariam expostos as sanções norte americanas, caso essas organizações sejam descritas como terroristas.
Para Nietzsche, filósofo alemão a verdade é uma questão de interpretação. Ele argumenta que a realidade não é uma única interpretação da realidade, mas sim uma construção social e cultural que varia de acordo com a perspectiva e o contexto. Para Nietzsche cada indivíduo ou grupo social a partir do que ele entende como cosmovisão de mundo baseado em suas crenças e valores, o leva a interpretar a realidade de maneira diferente, levando a diferentes resultados sobre a percepção da realidade. Sendo assim, o que estamos assistindo sobre o tema que trata da violência urbana no Brasil é um jogo onde a retórica se sobrepõe à realidade, onde situação e oposição posicionam suas bandeiras e que o sujeito cognoscente desse processo que é o cidadão que mora nas comunidades eleva como verdade um recorte da sua realidade. Assim sendo percebemos que a verdade do governo é não permitir que essa lei enfraqueça a soberania nacional, para a oposição vale tudo na luta pra derrubar o governo, inclusive deixar o país vulnerável a leis estrangeiras com a possibilidade de incursões armadas em território nacional. Para os empresários a sua verdade é impedir que sanções estrangeiras afetem seus lucros. E o cidadão comum refém da violência é facilmente manipulado pelas narrativas a ele impostas. Daí vem a pergunta de quem é a verdade afinal?

