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História Homenagem

Carmelita Souza Bittencourt

Mestra de gerações de atalaienses, foi Dona Carmelita a 14ª diretora do Grupo Escolar Floriano Peixoto.

08/06/2022 às 11h41 Atualizada em 08/06/2022 às 12h26
Por: Phablo Monteiro Fonte: Fotos: Arquivo Familiar
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Carmelita Souza Bittencourt, uma das mestras da Educação ata
Carmelita Souza Bittencourt, uma das mestras da Educação ata

A professora Carmelita Souza Bittencourt tem uma história de vida de superação e de muita dedicação à arte de ensinar. Figura Dona Carmelita entre as grandes Mestras da educação de Atalaia, sendo responsável pela alfabetização de gerações de atalaienses, que até hoje guardam na memória e no coração, as lembranças e os ensinamentos valiosos desta inesquecível professora.    

Filha de Antônio Lopes Rodrigues e Luiza Maria Teixeira da Silva, nasceu em Marechal Deodoro, Alagoas, no dia 24 de dezembro de 1920. Sendo criada como filha pelo senhor João Fabrício Souza.

Era apenas um bebê de três anos de idade quando sua mãe faleceu, sendo entregue aos cuidados de uma tia, no bairro Levada, em Maceió. 

Não foi um período nada fácil, tendo anos mais tarde sido internada por essa tia em um Orfanato na cidade de Marechal de Deodoro. Depois foi transferida para o Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, em Bebedouro, Maceió, onde teve sua formação educacional. 

Na capital alagoana, foi adotada pelo senhor João Fabrício Souza, que a criou como filha. 

Recém-formada no magistério e habilitada para lecionar, a jovem professora Carmelita, com apenas 22 anos, inicia no município de Rio Largo a sua brilhante trajetória na magistratura, sendo contratada para ensinar em uma escola mantida pela Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos (CAFT).       

Na Igreja das Graças, no bairro Levada, em Maceió, contrai núpcias por volta do ano de 1943/1944 com o atalaiense Hernon Cassimiro de Farias Bittencourt. Desse matrimônio nascem dez filhos, tendo falecido quatro ainda muito novos. Os seis filhos são: Herlita Maria, Hertz José, Herbate Albérico, Hernolita Lúcia, Herbelita Carolina e Hernon Cassimiro. 

A família foi crescendo e hoje já são 22 netos, 27 bisnetos, uma tataraneta já nascida e um tataraneto a caminho.

Seu esposo pertence a tradicional família atalaiense Farias Bittencourt. Hernon é bisneto do primeiro Intendente de Atalaia, o senhor Francisco Guilherme de Farias Bittencourt. Sobrinho do ex-prefeito Joaquim Fortunato Bittencourt Filho. Primo do ex-prefeito Genário Cardoso de Farias e dos ex-deputados federais Alfredo de Maya e Emílio de Maya.     

Carmelita também criou uma menina chamada Quitéria. Buscou na Justiça formalizar sua adoção, não sendo permitida pelo juiz da época, que alegou que Dona Carmelita já tinha seis filhos e “pouco recurso”. Ficou como tutora de Quitéria, hoje casada, formada, com dois filhos e três netos.

Após o casamento, passa a residir em Atalaia, na Rua de Cima, em uma casa vizinha a residência do ex-prefeito Joaquim Fortunato Bittencourt Filho.

Exerceu o magistério no município de Atalaia na Escola Paroquial da Igreja São Sebastião, na Boca da Mata da Rua de Cima. Também foi professora no Grupo Escolar Floriano Peixoto, onde no final da década de 50 e inicio da década de 60, assumiu o cargo de diretora desta histórica unidade de ensino. Foi sua 14ª diretora.

“Na Igreja de São Sebastião, tenho lembranças dos meus seis para sete anos, quando eu ia com ela. Minha mãe me conta que quando ensinou nesta Igreja, não tinha carteira, não tinha quadro negro. Ela pegava o banco que a gente se ajoelhava na Igreja e colocava para os meninos e as meninas sentarem. E, onde a gente sentava, que era uma tabua lavrada, ela colocava eles para escrever. E o quadro negro ela utilizava a porta da Igreja. Fechava a porta e escrevia atrás da porta da Igreja. Essa escola que ela ensinava era municipal, os alunos eram crianças pobres. Ela pegava no Grupo Escolar, onde estudavam crianças com mais recursos, os  toquinhos de lápis que eles jogavam fora e os restos de caderno, cartilha e levava para essa escola”, destaca sua filha Herbelita.

Bastante humana e caridosa, Dona Carmelita Bittencourt buscou nas urnas uma vaga na Câmara Municipal de Atalaia, para contribuir através da política, com a melhoria na qualidade de vida dos atalaienses. Ficou na condição de suplente.

“Fiz muita caridade mundo afora, evitei que muita gente passasse fome”, lembra Dona Carmelita, em recente vídeo gravado por sua filha.

Dona Carmelita também foi diretora no Grupo Escolar da cidade de São Luiz do Quitunde, que funcionava no período da noite.

Ensinou também no Colégio Hélio Lemos em Maceió. E diretora durante muitos anos no Grupo Escolar Thomaz Espíndola, que funcionava no Mercado da Produção, depois se transferido para a Rua do Sol. 

“Mamãe me falou que no primeiro dia que chegou para assumir esta escola, as merendeiras a chamaram na cozinha e mostram as panelas da comida da diretora, da supervisora, das professoras e das crianças. Dona Carmelita pediu e as merendeiras a entregaram um caldeirão bem grande, onde ela despejou todos os conteúdos das panelas nesse caldeirão. Disse para as merendeiras que em sua gestão seria diferente: Lembrem-se que as merendas vem é para as crianças, primeiro elas comem, se sobrar, aí a gente come”, nos conta Herbelita.   

Foram várias décadas dedicadas a educação. “Mesmo quando já podia se aposentar, ela preferiu continuar ensinando. Mamãe sempre foi muito forte e ágil, vindo a se abater mais só depois dos 93 anos, quando a diabete piorou e ela teve uma trombose que a debilitou muito. É uma mulher muito forte”, destaca Herbelita.      

Após marcar seu nome para sempre na história da educação atalaiense, Dona Carmelita vai residir em Maceió, em uma linda casa na Jatiúca, que mais parecia uma floresta. “Sua casa na Jatiúca vivia perfumada, porque as orquídeas cada uma florí em uma temporada. Então, tinha sempre orquídeas na varanda dela, perfumando tudo. Eram muitas orquídeas, todo dia tinha orquídea florida lá”, destaca sua filha. 

Carmelita foi uma das maiores orquidófilas do Estado de Alagoas. Sua paixão pelas orquídeas fez com que chegasse a ser reconhecida como a mais antiga colecionadora no Estado. Chegou a possuir mais de 400 orquídeas oriundas de Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Maranhão, Piauí, Pernambuco e Rio de Janeiro. “Uma orquídea que adquiriu no Rio de Janeiro levou 23 anos para florir. Considera a Serra Lisa, na cidade de Chã Preta, o santuário das orquídeas em Alagoas”, destacava reportagem da Gazeta de Alagoas, em 4 de fevereiro de 2007.  

Em 22 de janeiro de 2000, foi Carmelita Souza Bittencourt uma das fundadoras da Associação dos Orquidófilos e Bromeliófilos de Alagoas – AOBAL. Chegou a presidir a AOBAL em 2001, chegando a Presidente de Honra em 1º de dezembro daquele mesmo ano. 

Foto de 2007: Maria Izabel Brandão Vilela Holanda (Bezinha, associada), Carmelita Souza Bittencourt (vice-presidente) e José Edson de Oliveira (presidente). Fonte: Revista O Mundo das Orquídeas, ed. 47.

Também são fundadores da AOBAL o senhor Dr. Pedro e as senhoras Lindinalva de Lima, Maria Isabel Holanda (Bezinha), Leurides Paes e Hala Barndão.

“Mamãe foi muito importante na AOBAL, foi ela quem redigiu o estatuto da Associação. Inclusive existe um prêmio para quem melhor se apresentar nas exposições, que recebe uma medalha com o nome de Dona Carmelita Bittencourt”, lembra emocionada a sua filha Herbelita. 

A Associação dos Orquidófilos e Bromeliófilos de Alagoas tem como objetivo divulgar o cultivo de orquídeas e bromélias, bem como ajudar na conservação das espécies em prol do meio ambiente. Tem como uma de suas fundadoras Carmelita Souza Bittencourt. A AOBAL é formada por amantes de orquídeas e bromélias no estado de Alagoas, com o objetivo de reuni-los e compartilhar conhecimentos sobre estas plantas.

Em reconhecimento e em homenagem a sua importância para o cultivo de orquídeas e bromélias, a AOBAL instituiu em 2014 o troféu CARMELITA DE SOUZA BITTENCOURT, que é entregue para a melhor orquídea na EXPOAOBAL. 

É também Carmelita Bittencourt uma das alagoanas citadas no Dicionário Mulheres de Alagoas ontem e hoje, de Enaura Quixabeira Rosa e Silva.

Dona Carmelita rompeu as barreiras dos 100 anos em 2020, ainda bastante lúcida. Próxima de completar 102 anos, continua residindo em Maceió, com sua filha Herbelita. Em janeiro deste ano o Alzheimer evoluiu e debilitou bastante a eterna Mestra de gerações de atalaienses. “Mas, ainda reza, canta e nos faz ri bastante. Mesmo com Alzheimer, não esquece seu único amor, nosso pai Hernon Cassimiro Bittencourt. Ainda esta semana ela falou que se guardou para encontrá-lo na eternidade”, comenta Herbelita.

“Mamãe é o referencial mais importante de minha vida, seja como mãe ou como ser humano. A minha mãe não tem defeitos. Dona Carmelita tem todo direito de ter defeitos, mas a minha mãe não tem. Mãe responsável, educadora, carinhosa, honesta, sábia quando precisava nos corrigir. Fiel e obediente às praticas religiosas da igreja que escolheu pertencer (Igreja Católica Apostólica Romana). Foi presidente da Legião de Maria, Grupo Mãe Rainha, Igreja do Divino Espírito Santo, em Jatiúca, Maceió. Sempre servindo nas comunidades por onde passou. Em casa sempre nos instruiu para sermos pessoas dignas. Ela dizia que só merece respeito quem se respeita primeiro. Desde meus oito anos que fazia minhas tarefas domésticas sem nenhum constrangimento. Tudo que ela ganhava na escola, dos seus alunos, ela dividia conosco. Lembro de uma maçã que ela dividiu em 7 partes. Não sei a mágica, mas nunca fomos dormir com fome e nunca faltou comida em nossa mesa. Mamãe teve duas propostas boas de casamento, mas recusou as duas, alegando que já tinha 6 maridos (seus filhos)”, comenta Herbelita. 

Logo abaixo, destacamos dois depoimentos escritos por sua sobrinha e ex-aluna Luhenilda Bittencourt, publicados no Facebook:

 

"Querida Tia Carmelita,

Quando penso em uma educação de qualidade, onde as crianças se relacionam com o conhecimento de forma significativa e afetuosa; onde aluno pode ensinar, e professor confia no potencial de seus alunos, são suas aulas a minha maior referência, minha querida!  E, por isso, agradeço imensamente.

Alguns mestres marcam a vida da gente de uma forma muito significativa, por isso, neste dia consagrado aos PROFESSORES, você é a primeira imagem que tenho e lembro para homenagear com palavras; uma lembrança indelével.  

Um bom professor deixa em cada um dos seus alunos uma marca indestrutível, um pedacinho do seu ‘eu’, da sua sabedoria, que não atrapalha, que muitas vezes não se consegue rastrear até ele, mas que está lá e cresce e evoluí com cada um dos alunos.

Essa professora, na minha vida, foi e É você, e por isso mesmo chega a esta inevitável melancolia por saber que você talvez não mais compreenda minhas palavras. Obrigado por tudo, professora tia Carmelita!

A você, à maravilhosa profissional e pessoa que você é e sempre foi, à sua infinita paciência, ao seu carisma, à sua sabedoria, muito obrigada. Esta é uma homenagem em forma de agradecimento que penso, todos os que passaram pela sua vida profissional, gostariam de lhe prestar.

Desde as primeiras letras, até o 3º Ano primário, etapas que estudei com você, houve um despertar de algo especial em mim, que abriu meus olhos à leitura e ao gosto de ler e de aprender, de modo irreversível e transformaram a minha maneira de ver o mundo. Você foi uma dessas pessoas!

Os seus ensinamentos foram muito além dos conteúdos do currículo. Tivemos aprendizados importantes para a vida: Teatro, quermesse, ajuda humanitária... A sua missão foi muito além da missão de uma professora de escolinha paroquial municipal, você foi uma verdadeira mestra. 

Você soube despertar a nossa admiração de um modo único, e se tornou uma inspiração para nós, para mim.

Muito obrigada pela sua dedicação, paciência e carinho ao nos educar. Só posso agradecer por ter feito parte das nossas vidas, da minha vida escolar. Tenha certeza de que tudo o que aprendi com você, trouxe e vivenciei até hoje, na vida e na profissão.

À minha primeira mestra, tia Carmelita, toda a minha gratidão e carinho!", destaca em publicação no Facebbok, em 2019, sua sobrinha e ex-aluna, Luhenilda Maria Bittencourt.

 

"Carta à minha primeira professora 

Querida Tia Carmelita:

Penso que esta é a oportunidade ideal para agradecer por tudo aquilo que você fez por mim, por tudo o que me ensinou em aula e, também, por tudo de bom que a sua postura séria, honesta e ética influenciou a mim e a todos os meus colegas de classe.

Estudei com você desde as primeiras letras (Cartilha do ABC) até o 3º ano do curso primário, nos idos anos de 1960 até 1964. A nave da Capela de São Sebastião, sua mesa carcomida pelos cupins, o quadro negro faltando um pedaço, os enormes bancos  que serviam de carteira, eram os elementos que compunham o ambiente da Escola Paroquial São Sebastião, em Atalaia, na chamada Boca da Mata da Rua de Cima.

A turma multisseriada exigia de você uma vigília e criatividade constantes. Ensinar crianças de séries que iam da alfabetização à 4ª série faziam você cronometrar pedagogicamente a aprendizagem: enquanto explicava o conteúdo para uma turma, os outros estavam ocupados com atividades, exercícios ou, se era para a primeira e segunda séries, os alunos da terceira  e quarta série passavam as lições do pessoal da alfabetização e primeira série, respectivamente.  Éramos parceiros e, talvez daí nasceu minha vontade de partilhar o conhecimento que  adquiri ao longo do tempo. Foi vc quem me presenteou  com o primeiro livro da minha biblioteca: “O ursinho fujão”. A partir dele, meu apetite pela leitura se tornou voraz e nunca mais parei de aprender lendo e o mais importante: aprendendo a enxergar o que está escrito além do texto; tirar minhas conclusões e não ser apenas um “papagaio repetidor de ideias”.

Acredito que sua vida tenha sido bastante complicada, com tantas coisas a ensinar, com tantas provas a corrigir, com toda a preocupação em saber se os seus ensinamentos eram assimilados… Creio que sejam poucas as profissões que exijam tanto de alguém como o magistério, pois a sua tarefa não terminava quando chegava o fim da aula.

Sei que, muitas vezes, não soubemos reconhecer o seu esforço e a sua dedicação e, assim, peço-lhe desculpas em meu nome e em nome de meus colegas também. Não foi por mal, acredite!

As festas de fim de ano letivo, os preparativos para as mesmas com números de poesia, canto e teatro eram ansiosamente esperadas por todos.  Não sabíamos como, mas nunca faltaram balas, biscoitos, bolo regado a deliciosos sucos; como também as lembranças e prêmios para cada um. Vc nunca esquecia ninguém! Hoje, eu presumo que vc devia pedir aos seus conhecidos e também utilizar parte de seu minguado salário e do seu GRANDE AMOR POR NÓS!  

Os convidados, entre eles nosso querido Diretor e Pároco da cidade, Pe. Abelardo Romeiro Pereira, sempre nos elogiavam a interpretação, a desenvoltura e por trás de tudo isso estava a sua dedicação constante e seu talento sem par para educar, na expressão mais real da palavra: “fazer brotar de dentro de nós as potencialidades que vc  reconhecia termos.

Este dia me parece uma boa oportunidade para fazer uma promessa: a de sempre SER professora, e nunca esquecer que toda pessoa tem potencialidades que precisam ser descobertas e exploradas não importa onde seja: numa sala de aula, no jardim, na roça, num canteiro de obras, na sala de jantar, na fila do ônibus!

Um grande beijo de agradecimento e um amor imenso da sua Lú".

Foto: Luhenilda Bittencourt e sua tia Carmelita Bittencourt.

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