História Homenagem

Quadrilha Junina Asa Branca – Tricampeã Alagoana e Campeã Brasileira

Multicampeã, se transformou em patrimônio cultural da cidade de Atalaia e referência para muitas outras quadrilhas juninas.

24/06/2020 20h33 Atualizada há 3 meses
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Por: Phablo Monteiro
Quadrilha Junina Asa Branca em 2001, bicampeã alagoana e campeã do Nordeste (Brasileiro).
Quadrilha Junina Asa Branca em 2001, bicampeã alagoana e campeã do Nordeste (Brasileiro).

Desde que o folclorista atalaiense Zé Neto organizou a primeira Quadrilha Junina da cidade, a Quebra-Coco, que essa tradição da cultura nordestina se tornou mais presente em festividades de rua e de escolas do município. Mas, foi só na década de 90, através da QUADRILHA JUNINA ASA BRANCA, que essa linda manifestação cultural conquistou os corações dos atalaienses, que passaram de simples admiradores, para torcedores.

Como veremos a seguir, os primeiros movimentos que resultou no que viria a ser a Asa Branca, são resultados da organização de alunos do antigo Colégio Cenecista Nossa Senhora das Brotas, na busca de se divertirem nas festas juninas, através de quadrilha junina fiel ao estilo matuto. 

Em 1992, o São João no antigo Cenecista foi animado por apresentações simples de quadrilha, idealizada por alunos daquela unidade de ensino. Anderson Ricardo, um dos nomes históricos da Asa Branca, lembra dos primórdios da Quadrilha. “Uma turma de alunos se reuniu para organizar uma Quadrilha com objetivo de se divertir e surgia assim a Quadrilha “CHORA NA RAMPA”. Eu era o noivo da Quadrilha, a Luciene era a noiva, o Júnior Rocha dançava, o Helanio, a Margarete, a Janete, o Zé do Caldo, o Tatá, entre outros nomes”.

Ainda em 1992, uma outra Quadrilha Junina passa a ser organizada no Cenecista, através dos alunos Élidia e Arnaldo. Adotam o nome “AS PIRIQUITAS” e passam a realizar apresentações no próprio Colégio, na Casa de Cultura e Quadra de Esportes Raimundo Nonato. Era uma Quadrilha realmente matuta, com desfiles de carroça, vestidos de chita, calças com remendos. Tinha por tradição desfilar nas ruas de Atalaia.

Em 1993, “AS PIRIQUITAS” inicia sua participação em campeonatos de Quadrilhas Juninas não só em Atalaia, mas também em outras cidades, a exemplo do campeonato do Shopping Iguatemi, em Maceió. “No Iguatemi não foi uma experiência muito agradável, a Quadrilha ainda não estava muito organizada e não nos saímos nada bem”, lembra aos risos Anderson Ricardo.

Em 1994, com o fim dessas duas Juninas, surge a ASA BRANCA. Com a participação e idealização do Professor Manoel da Silva Oliveira (Mano), uma votação escolheu o nome ASA BRANCA, baseado em umas das musicas de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião: “Quando olhei a terra ardendo. Qual fogueira de São João. Eu perguntei a Deus do céu, ai. Por que tamanha judiação…”. ABC do Sertão, Xôte das Meninas, Vida de Viajante, Boiadeiro, entre outros nomes estavam na disputa.

“Como diz a musica do grande poeta, se o Nordeste fosse independente, a ASA BRANCA seria um hino nacional. Então, para uma grande Quadrilha ser realmente grande, ela precisa ter um grande nome”, comentou Kennedy Melo, um dos veteranos da Junina atalaiense, em entrevista para a TV Gazeta.  

A Quadrilha iniciava assim a sua transição do matuto para o estilizado. Vestidos rosas e agora com coreografias, e lá estava a Junina Asa Branca, com empolgação total, representando a cidade de Atalaia no concurso realizado no Shopping Iguatemi. 

Ainda com certa resistência de alguns alunos em manter a Junina "AS PIRIQUITAS", o diretor do Colégio Cenecista, Professor Anilson mostra poder de diálogo e intervém em várias discussões e algumas revoltas, mostrando a importância da união de forças em torno de um só projeto, já que o Colégio só teria condições de investir em um projeto. Com isso, a ASA BRANCA permaneceu.

No São João de 1996, a evolução da ASA BRANCA foi radical. Com Professor Mano a frente da organização e com os seguintes trajes: Paletó, gravata, vestidos longos e alpargata. No concurso da TV Gazeta, representa a cidade de Atalaia no alagoano. Uma infelicidade com a queda de um dos seus integrantes, o Charles Douglas, ficou marcado até os dias de hoje. A ASA BRANCA termina em 5º lugar no geral, sendo a melhor colocada entre as Quadrilhas do interior.

Em 1998, a Junina ASA BRANCA começa a viajar para fora do Estado, levando o nome de Atalaia. Mesmo ainda não sendo muito conhecida, participa da competição em Caruaru, ficando em 3º lugar.

É nesse ano que começa o período de dominação da ASA BRANCA em Alagoas, com o título do São João dos Carneirinhos, realizado no Prado, em Maceió. “Nesse ano ficamos em segundo lugar no alagoano, mas nesse São João no Prado conquistamos o primeiro lugar, a frente da então campeã alagoana, a Xô Aconchego”, lembra Anderson Ricardo.

No artigo As Quadrilhas Juninas em Maceió no contexto dos concursos, de Joelma Ferreira da Silva, a autora destaca que o “São João dos Carneirinhos” tinha uma importância e um interesse maior para as Quadrilhas Juninas. “Apesar da existência de dois importantes concursos, um da empresa de turismo Ematur e outro organizado pelo Hiper Center Bompreço, considerados, na época, como concurso alagoano e municipal, respectivamente, eram os concursos de rua “São João dos Carneirinhos” ou “Arraial do Doca” os mais reconhecidos e almejados pelas quadrilhas”.

Em 2000, a Junina ASA BRANCA vive seu primeiro ano de glória, com a conquista do seu primeiro título alagoano e sua coração oficial como a melhor Quadrilha Junina de Alagoas. Essa conquista deu direito de representar Alagoas no Campeonato do Nordeste (Brasileiro) em 2001.

Era o primeiro ano do concurso “Forró e Folia”, um evento de maior proporção, que funcionava como uma etapa para escolha de uma quadrilha representante de Alagoas em nível de Nordeste. 

O evento foi realizado na Praça Multieventos, no bairro Pajuçara, em Maceió. Com Toninho responsável pelas coreografias e Napoleão César responsável pelas vestimentas dos componentes, a Junina atalaiense conquista o campeonato alagoano. Em segundo lugar ficou a Bate Coração e em terceiro lugar a Kalango Tango.

O tema da Quadrilha foi ASA BRANCA CANTA E DANÇA O BALÉ DO MEU SERTÃO: “Seu doutor Nordestino, preste muita atenção, peço auxílio do sulista nessa seca no sertão. Mas, doutor uma esmola...”.

Ainda em 2000, a ASA BRANCA fica em 4º lugar em Caruaru. As outras duas Quadrilhas Alagoanas, as mesmas que representaram Alagoas no Nordeste daquele ano, ficaram em 7º e na 13º colocação.

“Nos anos 90 a maioria das Quadrilhas não tinham a chamada evolução nas danças, por isso os campeonatos eram dominados pelas Juninas de Maceió, principalmente a Xô Aconchego do bairro do Poço e a Luar do Sertão do bairro do Prado. O que fez a ASA BRANCA adentrar nesse cenário como protagonista, foi justamente a sua forma de dançar. Com uma proposta diferente e novas coreografias, era muito marcante essa evolução da Quadrilha. A música de Luiz Gonzaga. Toda essa evolução conquistou o público, conquistou os jurados”, destaca Júlio Wesley, integrante da ASA BRANCA em sua fase de glória.   

Uma participação maior do sanfoneiro na evolução da Quadrilha foi uma marcante inovação da ASA BRANCA nessa fase de glória, lembra Anderson Ricardo, que aprendeu a tocar sanfona por causa da Quadrilha. “Zé Nilson ficou tocando triangulo, o Jonas como zambumbeiro e eu fiquei como sanfoneiro, onde organizamos essa parte musical. Com um adaptador sem-fio, comecei a tocar no meio da Quadrilha, um diferencial na época”.

Em 2001 só deu a ASA BRANCA de Atalaia. “A Asa Branca participou de 32 campeonatos, dentro de Alagoas e fora, só perdendo uma competição, por meio ponto. Até hoje nenhuma Quadrilha conseguiu essa façanha. Por isso hoje ela é considerada a Quadrilha campeã de tudo, pois todos os campeonatos que participou, foi campeã”, comenta Júlio Wesley.  

Rumo ao bicampeonato alagoano e ao título brasileiro, a Junina ASA BRANCA entra cheia de confiança, com Lampião e Maria Bonita representados por Toninho e Débora, com o tema “A Seca no Sertão” e ao som de Bodocó: “Quando eu vim do sertão, seu moço no meu bodocó, a malota era saco e o cadeado era nó, só trazia coragem e a cara...”.

Em 15 de Junho inicia sua busca pelo bicampeonato alagoano, no Ginásio do SESI, no bairro do Trapiche da Barra. ASA BRANCA torna-se bicampeã, com sua principal adversária a Luar do Sertão em segundo lugar e a Bate Coração em terceiro.

No dia 22 de junho viaja à Catende, Pernambuco, onde conquista mais um título. De lá, segue para Campina Grande e Caruaru, onde em Pernambuco representa Alagoas, por ter sido campeã alagoana do ano anterior, conquistando naquela cidade o título de CAMPEÃ NORDESTINA (BRASILEIRA) DE QUADRILHAS JUNINAS, trazendo de volta esse troféu para Alagoas, após cinco anos.

Em 2002, vai novamente disputar o título brasileiro, tentar o bicampeonato, dessa vez em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Só que os dois ônibus quebram durante a viagem, impossibilitando que os componentes cheguem a tempo da disputa.

Ano de 2003, foi do tricampeonato alagoano e de grande renovação de seus componentes. Com uma mistura de roupas estilizadas e matutas, a ASA BRANCA abordou o tema “São João do Interior e da Capital”. A insegurança, normal entre os novatos, poderia atrapalhar a conquista do título. Porém, a ASA BRANCA deu um show, tanto de animação, quanto de alinhamento. Uma apresentação perfeita, digna de ser aplaudida de pé. O título ficou novamente com Atalaia, com a Junina Do Amor na segunda colocação e a Xodó Alagoano em terceiro.

“Luiz Gonzaga foi nosso padrinho, foi quem nos “cedeu” o nome ASA BRANCA e nós honramos com o coração e com muito prazer. Faço parte do grupo desde a fundação e me sinto orgulhoso em bater no peito e dizer que sou da família ASA BRANCA”, comenta Dola Rocha, em entrevista a TV Gazeta.

Para Dola Rocha, o empenho e a dedicação de todos foi o grande segredo desse sucesso. “Detentora de todos os títulos no Estado e campeã também fora de Alagoas, o resultado desse sucesso foi o empenho de todos os envolvidos, com a grande evolução da Junina. Era notório o empenho, a garra e a determinação dos componentes em entrar no palhoção e levar a emoção ao público. Isso fez com que chegássemos nesse sucesso tão grandioso”, comentou.

Além dos títulos já citados acima, a nossa ASA BRANCA também é Hexacampeã do Cheiro da Terra em Alagoas, Tetra Campeã do Festival Regional de Maribondo-AL, Bicampeã de Anadia-AL, Campeã em Palmeira dos Índios, Bicampeã em Rio Largo-AL (96/97), Campeã de Igací-AL, Campeão da Infraero-AL e Pentacampeã Atalaiense (1994 a 1998). Entre tantos outros títulos.  

A ASA BRANCA se tornou um patrimônio cultural da cidade de Atalaia, sendo convidada para se apresentar em vários Estados. “Éramos convidados para participar de muitos eventos em todo o Nordeste, sendo recebidos muito bem pelas Quadrilhas Juninas de todos os Estados, que admiravam o nosso estilo de fazer Quadrilhas”, lembra Anderson Ricardo.  

Para o sanfoneiro da ASA BRANCA, todo esse reconhecimento trouxe incômodos para as outras Quadrilhas alagoanas. “Achavam que a TV Gazeta prestigiava a ASA BRANCA e resolveram criar uma Liga, que nasceu para fazer esse combate fora dos palhoções, com a ASA BRANCA. Tanto é que no primeiro ano dessa Liga, só participamos através de uma ação liminar na Justiça. Mas, os jurados eram todos da Liga”, comenta Anderson Ricardo.

“Para o campeonato a ASA BRANCA quando entrava, já era estigmatizada, não tínhamos mais chances. A verdade é essa. Chegou num ponto de perfeição muito grande que incomodou, não queriam que participássemos mais, queriam simplesmente que a gente abrisse e fechasse a competição”, destaca o sanfoneiro. 

Em 2006 o sanfoneiro Anderson Ricardo e outros 15 integrantes da Quadrilha Asa Branca, viajaram até o Rio de Janeiro, onde foram uma das atrações do domingo, dia 27 de agosto, no quadro “Se Vira nos 30”, do Domingão do Faustão, na Rede Globo. Lá o grupo atalaiense pôde mostrar novamente a cultura do Nordeste para todo o mundo.

Com a Liga desde 2004 exercendo “influência na organização desses eventos, na escolha dos jurados”, como destaca Joelma Ferreira da Silva, em seu artigo, a Junina ASA BRANCA só conseguiu obter um resultado significativo no ano de 2012. 

Com o tema “O Hino do Sertão e a Cantiga do Rei do Baião”, a ASA BRANCA EM 2012 fez uma linda homenagem à Luiz Gonzaga, dentro do seu enredo. Terminou numa injusta segunda colocação, mas sendo aclamada por muitos como a verdadeira campeã.

Para Anderson Ricardo, é imensa a falta que a Quadrilha ASA BRANCA faz para Atalaia. “Era uma referência, onde nossa cidade ficou muito conhecida por ter uma Quadrilha Junina daquele porte. Aonde chegávamos, todos ficavam sabendo sobre Atalaia. Ela também incentivou muita gente a gostar da cultura. Entre seus componentes, podemos citar muitos que pegaram essa raiz e que infelizmente não pôde ter continuidade. Faz muita falta por sua capacidade de mostrar que a cidade de Atalaia tem algo interessante culturalmente”.

Componente da ASA BRANCA desde 1995, quando a princípio era o mascote da Junina, Dola Rocha também destaca a importância da Quadrilha para os jovens da cidade. “ASA BRANCA representou algo que unia o útil ao agradável, pois fazia com que os jovens tomassem gosto pela arte e através dela mostrasse seus talentos. Além do quê ocupava e enriqueceu a cultura local. Sua importância está no enriquecimento da cultura nordestina ao nosso povo”.

O último ano da ASA BRANCA no palhoção foi em 2014, com a temática "Trindade Nordestina".

Um dos grandes nomes para o sucesso da Junina ASA BRANCA é indiscutivelmente o Professor Mano, que em seu depoimento reforça a historia de sucesso desse grupo de atalaienses. 

“A história da Quadrilha Junina ASA BRANCA de Atalaia tem uma relação enorme com o que é possível e realizar. Criamos com o objetivo apenas de movimentar o São João na Escola Cenecista e a nossa maior alegria era quando recebíamos convites para dançarmos nas regiões da Ouricuri e Uruba. Mas, tínhamos o desejo de nos apresentarmos em Caruaru, mas isso há 26 anos atrás era quase impossível, o fator financeiro era o empecilho. Mas, juntando dinheiro, fazendo rifas, conseguimos ir e nos classificamos para a grande final, entre mais de cem quadrilhas. Fomos a primeira quadrilha de Alagoas a se apresentar em Caruaru e, com isso, abrimos o caminho para as demais. A cultura atalaiense teve seu nome divulgado em todo o Nordeste. Éramos vistos como um fenômeno junino, pois conquistamos todos os títulos que disputamos. Muitas Quadrilhas hoje de nome, se espelharam na ASA BRANCA”, destaca.

Professor Mano completa ressaltando o orgulho que a ASA BRANCA representava para os atalaienses. “É importante ressaltar que a ASA BRANCA teve o apoio de todos os gestores municipais, porque eles viam na ASA BRANCA o nome de Atalaia em destaque. Era um fator de orgulho aos atalaienses. Atalaia era conhecida como terra da Quadrilha ASA BRANCA. Teve um fato interessante, que uma banda  veio tocar no Clube e o empresário comentou que a multidão que ali se formou era para vê a banda dele tocar. Mas, como acontecia todo ano, a primeira apresentação no Clube era da ASA BRANCA e depois que acabou a apresentação, a multidão foi embora. A ASA BRANCA tinha a capacidade de unir todos, pois sua importância cultural está relacionada à família ASA BRANCA, que sempre manterá viva nos pensamentos, os ótimos momentos em que representamos Atalaia. É a melhor Quadrilha Junina do interior de Alagoas. Até hoje, nenhuma Quadrilha do interior chegou ao nível da ASA BRANCA de Atalaia. Viva a ASA BRANCA de Atalaia! Orgulho de ser atalaiense”, finalizou.

* Com fotos do Facebook da Quadrilha Asa Branca, Alberto Vicente, Rômulo Guedes, Ana Paulo Calixto, Wesley Menegari e Fabrício Casado. 

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