História Homenagem

João Camello da Costa Filho, o Major Moço

Um dos grandes nomes da história da Cavalhada em Alagoas.

16/06/2020 20h29 Atualizada há 4 meses
1.407
Por: Phablo Monteiro
Major Moço, grande nome da Cavalhada em Alagoas.
Major Moço, grande nome da Cavalhada em Alagoas.

Filho do Major João Camello da Costa e de Maria Josefina da Costa Tenório, João Camello da Costa Filho nasceu no Engenho Serraria de Baixo, em Atalaia, no dia 8 de agosto de 1890. Sua mãe é filha do ex-vereador de Atalaia Luiz Tenório de Albuquerque e irmã do ex-Intendente de Atalaia o Coronel João Evangelista da Costa Tenório. 

É cunhado do ex-Intendente de Atalaia, Alfredo de Mello Camello. Primo em primeiro grau do ex-prefeito José Tenório e do industrial da Usina Ouricuri, Manoel Tenório. É tio do ex-vereador de Atalaia, Antônio Vieira da Costa.

Pertencente a famílias tradicionais de Atalaia, herdou o título de Major do seu pai, passando a ser popularmente conhecido como o “MAJOR MOÇO”. 

Era um grande proprietário rural em Atalaia. Residia na Vila de Sapucaia. Dono do Engenho Umburí, localizado próximo a Sapucaia. Também era proprietário das Fazendas Serraria de Baixo e Sapucaia, todos localizados em Atalaia. Também era criador de gado.

A frente dessas propriedades, empregou inúmeros esforços com o objetivo de desenvolver e aperfeiçoar os métodos de cultura da terra, para plantar e fornecer  cana de açúcar da mais alta qualidade para a Usina Brasileiro, na administração do Barão de Vandesmet e também na administração da família Berardo. Após o fechamento da Usina Brasileiro, passa a fornecer cana para a Utinga Leão. 

Em Serraria de Baixo, existia um Povoado com uma população de cerca de 500 pessoas, em sua maioria agricultores dedicados ao cultivo da cana. “Pelo seu modo de proceder, correto e humanitário, merece dos trabalhadores grande admiração e apreço”, destacava a revista Anuário Nordestino, em sua primeira edição, publicada em 1952.

Major Moço foi descrito pelo Anuário Nordestino como uma das grandes figuras atalaienses. “Chefe modelar de família, amigo leal, é um elemento de realce na política e na sociedade alagoana. É conhecido em todo o Estado seu espírito hospitaleiro e acolhedor”. 

De seu primeiro matrimônio, com Francisca Taveiros da Costa, teve três filhos: Condillac, João Camello Neto (Camellinho) e Maria José Camello. 

Viúvo, casa-se com Joanita Vieira, com quem teve nove filhos: Overlack, Overland, Jackson, Robson, Benedito, Renilson, Deusdite, Edite, Judite e Francisca.

Também é pai de Nazir, Nadir, Edson e Nazaré, de outro relacionamento.

Sua filha, Deusdite Camello, lembra do pai carinhoso e que gostava de organizar festas. “Recordo sempre de um pai muito bom, uma pessoa carinhosa que gostava de reunir toda a família para fazer festas. Organizava com muita dedicação a Festa de Santa Cruz, em Sapucaia que acontecia próximo ao Natal. Meu pai improvisava um palco e convidava músicos do Pilar para a diversão dos moradores locais. Tinha o espaço da família e o espaço dos moradores, mas todos aproveitavam por igual a festa”, lembra sua filha.

Religioso, foi ele quem construiu a Igreja de Santa Cruz, na Sapucaia. Sempre participativo junto com sua família, nas festividades religiosas da localidade.

Na política atalaiense sua participação foi rápida e discreta, apesar de gozar de grande popularidade e admiração entre os políticos da época. Foi candidato a vereador na eleição de 1947, ficando na condição de suplente.   

Assume uma cadeira na Câmara Municipal de Atalaia no dia 11 de agosto de 1948, por conta da perda do mandato do então vereador Alfredo de Castro Cerqueira, por motivo de seguidas faltas sem justificativas. Faziam parte daquele Poder Legislativo na época, nomes como o do professor Genário Cardoso, então presidente, Abraão Fidelis de Moura e João Miranda de Oliveira. 

João Camello da Costa Filho chegou a ser eleito vice-presidente da Câmara e exerceu seu mandato até o dia 19 de abril de 1949, quando o vereador Alfredo de Castro Cerqueira reassumiu o seu mandato por decisão unânime do Tribunal de Justiça de Alagoas, presente no acórdão nº 9668 de 8 de Março de 1949.

Quem 14 anos mais tarde representaria o nome da família no Poder Legislativo Atalaiense, seria sua filha Edite Vieira Camelo de Moares, a Ditinha, que com Isa de Medeiros Duarte, foram juntas a segunda representação feminina naquele Legislativo.  

Em seu Livro Atalaia, Último dos Palmarinos (1980), Vandete Pacheco nos conta que o Carnaval de Atalaia muito contou com a animação do Major Moço. “De Sapucaia vinha o “Cara Dura” dirigido por Major Moço, seu porta-bandeira era o Sr. Condilac Camelo”. 

Getúlio Pereira Leite, em artigo para o Jornal Folha Atalaiense, lembra de outro bloco que se destacava no Carnaval da década de 50. “Havia vários blocos carnavalescos na época, destacando-se A CIGANINHA do Povoado Sapucaia, sob o comando do Major Moço e tendo a frente sua filha Ditinha”.

Mas, culturalmente falando, o nome do Major Moço está mais ligado a Cavalhada e nesse folclore foi ele um dos principais protagonistas, entusiastas e progadadores da Cavalhada em todo o Estado de Alagoas, liderando grupos de cavaleiros não só de Atalaia, mas também de Capela. 

Foi Major Moço o precursor desse folclore em terras atalaienses, passando essa tradição para filhos, neto e até bisneto atualmente.

Liderava seu grupo de cavaleiros, dentre eles muitos de seus filhos e sua filha Edite, em tradicionais Cavalhadas realizadas principalmente em festas natalinas das usinas Utinga Leão, e Usina Brasileiro e, nas cidades de Maceió, Atalaia, Pilar, Rio Largo, Viçosa, entre muitas outras localidades.

Era um dos principais matinadores do Estado: “...matinador é a figura mais importante da Cavalhada. É dirige os ensaios e conduz o torneio. É sempre um dos cavaleiros mais velhos e mais destros. Ser matinador é um posto e um garladão. Em Alagoas, nos últimos tempos, um dos maiores matinadores foram o Major João Camello e Sifrônio Vilela”, destaca o grande folclorista alagoano, Théo Vilela Brandão, em seu livro AS CAVALHADAS DE ALAGOAS (1978).

Uma característica das Cavalhadas organizadas pelo Major Moço é descrita pelo grande folclorista alagoano. “...na Cavalhada de João Camelo, há sempre, enfileirados  antes do poste da argola, postes ornamentais. E é entre eles que os cavaleiros passam, contornando-os e fazendo zigue-zagues nas Escaramuças”.

Major Moço, primeiro cavaleiro da esquerda para a direita, participando de uma Cavalhada em Bebedouro, Maceió, em 1952. Foto: Acervo do Museu Théo Brandão. 

Em outro trecho de seu livro, Théo Brandão relata a apresentação do Major Moço, com seus cavaleiros em uma Cavalhada em Bebedouro, Maceió, em 1952. “Major João Camelo, ...proprietário da Fazenda Sapucaia, município de Atalaia, apresentou-se com seus cavaleiros, alguns filhos e genros na Cavalhada ocorrida em janeiro de 1952, no arrebalde de Bebedouro, em Maceió, por ocasião da IV Semana Nacional de Folclore. Apesar de sua idade avançada e dos seus cento e tantos quilos de peso, ágil e proeficiente, ainda puxa seus cavaleiros em brilhantes arrancadas na corrida da argolinha ou nas escaramuças”, destaca o folclorista alagoano.

Fiel ao cumprimento de todas regras e ritos da Cavalhada. Bebidas e desconcentrações com a festa, só era permitida por ele após o termino da Cavalhada.

“Recordo-me que, ainda em 1955, promovi a pedido do Governo do Estado, para uma reunião da Juventude Musical, uma exibição de Cavalhada, convidando o Major João Camelo, para realizá-la, especialmente para os visitantes. E, como só aos partidários e aos entendidos em Cavalhadas era interessante a assistência às seis carreiras à argolinha, propus ao Major Camelo que executasse as Escaramuças antes das carreiras de argolinhas, para que os visitantes pudessem apreciá-las, retirando-se, então, depois da primeira carreira à argola. Pois bem, o Major João Camelo negou-se peremptoriamente a modificar a sequencia tradicional  do torneio, colocando as Escaramuças antes da corrida da argolinha e me disse: “Não tem importância se não houver assistência para o restante da Cavalhada, eu farei sozinho com meus cavaleiros”. E assim aconteceu. Os congressistas tiveram que retirar-se, o público era pequeno e afinal, no vasto parque da Exposição Pecuária onde se realizou a exibição, ao final só estavam os cavaleiros, João Camelo e eu próprio.  E, já a noitinha, não deixou de fazer ele a sua alocução costumeira de agradecimento aos cavaleiros”, lembra em seu livro, o viçosense Théo Brandão. 

Théo Brandão também destaca toda a emoção do Major Moço em cada despedida da Cavalhada. “O major Camelo dá em suas alocuções de despedida um tom verdadeiramente tocante e suas palavras parecem fazer-nos retornar aos tempos antigos, dos cavaleiros medievais que eles representam. E, é tamanha a sua sinceridade, a emoção que ele emprega em suas palavras que sempre termina chorando ao abraçar, um por um, os seus companheiros, agradecendo-lhes os serviços prestados e pondo-se a disposição do mesmo para qualquer eventualidade”.

Seu neto, Ednou Camello, lembra do amor que seu avô tinha pela Cavalhada. “Foi quem ajudou a fortalecer esse folclore no Estado. Em suas festas, não podia faltar a Cavalhada, correndo junto com o meu pai Edson e demais filhos e outros nomes de várias cidades. Sendo o matinador, exigia que a Cavalhada fosse corrida com muito respeito, com muita seriedade e sem bebedeira. Todos tinha que estar organizados, os cavalos tinham que estar arrumados. Só após a Cavalhada é que a festa estava liberada”, destaca seu neto, que também foi cavaleiro e que agora passou a tradição para o seu filho Tony, bisneto do homenageado. 

Presidente da Associação de Cavalhada de Alagoas, Fernando Vigário, destaca que Major Moço é um dos símbolos da Cavalhada alagoana e lembra nomes de contemporâneos dele, que também ajudaram a tornar esse folclore tão praticado em Atalaia. “Dos filhos dele cheguei a correr com o Ovelarck, Overland e com o Edson. Para os cavaleiros mais novos, Major Camello é uma figura sempre lembrada na Cavalhada, com um dos principais símbolos desse folclore não só em Atalaia, mas em Alagoas. Lembro de outros nomes dessa época como o meu pai Luiz Vigário, Décio, Manú Marchante, Jorge Vieira, Seu Amadeu da Ouricuri, Luiz Gregório, Zé Barbosa da Branca, Cícero Gregório da Sapucaia, Riva Dávia, Zé Harri lá da Porangaba, Seu Rubens e tantos outros nomes que fogem a memória”, destaca o presidente da ACA.   

João Camello da Costa Filho faleceu na cidade de Atalaia, em 29 de setembro de 1966.

Na primeira sessão Legislativa atalaiense, após a sua morte, o vereador José Correia Filho, lamentou o “desaparecimento do chefe de família de ilustrada prole, atalaiense, o senhor João Camello Filho, o Major Moço, da Vila de Sapucaia”. A solicitação de condolências da Câmara Municipal, foi aprovada por unanimidade. Com a palavra a vereadora Edite Camelo disse de seu profundo agradecimento pela homenagem póstuma desta Casa, prestada ao seu inesquecível genitor, em nome de sua família. 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias